segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Se há um "melhor", que seja ele.



E então ele me arranca uma risada gostosa, suculenta, de tirar o fôlego. Como sempre, com alguma piada infame e sem graça alguma. Mas a habilidade de me tirar da neblina dos pensamentos com aqueles comentários toscos é só dele.
Eu olho em volta e caio em mim sobre o quanto aquele ser patético me conhece, mesmo na rotina distante, ele não precisa me olhar nos olhos pra saber quando as coisas estão bem ou não. Ele sabe, sempre sabe. Ele entende cada pedaço torto do meu corpo e é capaz de dizer que eu to linda mesmo com o cabelo desgrenhado, a roupa amassada e muito acima do peso. Pra ele pouco importa se eu sigo os padrões de beleza ou da moda; eu não sou a ruiva que deixa ele louco, não tenho a covinha pela qual ele sempre foi apaixonado, não tenho as pernas que o fazem revirar os olhos, não sou a mais feminina e sequer faço o tipo da mulher da vida dele. Mas aos olhos dele eu sou linda, sexy e “daria um caldo”, tudo na brincadeira, é claro.
Além de tudo, ter o melhor conselheiro amoroso ao seu dispor não é pra qualquer uma. Sim, eu tenho. Tenho conselhos sinceros, claros e objetivos; apoio às burradas também e lembrança que não sou a única idiota do universo se me apaixonar por um babaca. Tenho alguém que aguenta minhas crises, minhas loucuras, meus momentos adolescentes e meus discursos amadurecidos sobre a universidade e a política. “Tenho”. Que forma mais possessiva/louca/infantil de tratar alguém. Não, ele não é um objeto. E não, não sou possessiva com ele (não até hoje, pelo menos), mas é que repetir que eu “o tenho” é como confirmar pra mim todos os dias a sorte que eu tive esse ano de encontrar ele.
A minha sorte se deu numa manhã das primeiras semanas de aula. Mas é como se fosse ontem. Eu de saião, um sorriso enorme no rosto e toda energia do mundo pra receber aquele “novato”; ele com a bermuda quadriculada de sempre, uma timidez incomum e o ar sonolento. Sim, não vamos negar, ele reparou nos meus peitos (foi ele quem me disse), mas isso pouco importa. Dali em diante não era mais só eu, nem era mais só ele. Tínhamos um ao outro. Evoluímos de áudios de 15 segundos para 5 minutos. Desabafamos, compartilhamos, choramos e rimos muito. E em um dos dias mais importantes, ele estava lá, dizendo novamente “você ta lindona” e “foi muito bom, eu adorei te ver e só lamento não ter te conhecido antes”.

Lágrimas me escorrem dos olhos quando falo ou escrevo sobre ele, mas sempre acompanhadas de sorrisos. Porque ele é bem isso: sorrisos. Sorrisos leves, sorrisos de tardes em que o sol não é tão quente e o vento faz uma visita gostosa. Ele é meu presente diário, minha descoberta desse ano, meu baú de tesouros. Meu cúmplice. Meu parceiro. Meu confidente. Meu amigo. Aquele que tem a melhor parte de mim. 

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

O ministério das causas perdidas adverte...



Amar não é proibido. Não causa bronquite nem risco à vida. Não tem contraindicações nem manual de instruções. Não precisa de receita médica ou de certificado de garantia. Amar é precipitar-se. Precipício. É correr risco sem saber no que vai dar. Amar acontece. Numa viagem a trabalho, numa fila de cinema, ao dobrar a esquina, numa conversa descompromissada, no meio da chuva, nas férias, na sala de aula, nos bancos de praça, no meio da amizade, na aula de dança, num acidente de estrada, nas comédias românticas, no ônibus, na mesma rua, na volta pra casa, nos nossos sonhos. No meio da rotina abarrotada o Amor chega e te dá um “bom dia”, um aperto de mão e sai andando normalmente, como se nada tivesse acontecido. Brinca de pira-se-esconde e te faz esperar um beijo roubado que talvez nunca chegue. Envia cartas. Faz piadas sem graça e te faz morrer de rir. O Amor faz parte. E faz arte. E então some em busca de outra companhia e te sobram as lágrimas. Tentam te convencer que não era o Amor, que era outro disfarçado pra te confundir. Porque parece que o Amor tem que ser perfeito, e parece que perfeito tem que durar para sempre. Parece que o Amor é criminoso se descobrir que pode ser mais curto, pode querer ir embora, visitar outros mundos. O Amor, no fundo, não nasceu pra ficar parado num lugar só. Não nasceu pra se fechar em 4 paredes e alguns dias divertidos. Amar, não é proibido, mas vicia.

domingo, 7 de setembro de 2014

Sabe, meu bem

Eu ainda não te disse, mas você tem cheiro da manhã nublada e gosto de gota de chuva do dia anterior. Tem nos olhos a marca da ressaca de amor e no sorriso um traço doce que me lembra o mel que eu uso pra adoçar o meu café. Ah, e você  gosta de café. Tanto quanto eu.  E também gosta de Chico e Caetano e de madrugar falando dos problemas e banalidades da vida. Cheira a sabonete e a suco de limão, que eu adoro por sinal.
Você chegou e os botões desabrocharam, anunciando uma primavera fora de hora, em pleno inverno do meu coração. Degelar alguém deveria ser crime no mundo em que eu vivo. Mas vai ver não é porque alguém como você não pode ficar preso, precisa mostrar ao mundo as delícias de se viver nele, como fez comigo. Você quebrou minhas correntes e derreteu a Sra. Alasca, há tanto acomodada em seu castelo de neve. Trouxe consigo um mar de risos e invadiu meu castelo deixando no caminho pequenas alegrias, como o pão espalhado por João e Maria, pra não se perder quando voltar pra casa.
E aí chegamos ao ponto principal disso tudo... Você bem que podia não voltar. Ficar por aqui, ta cheio de espaços. Meu castelo é grande o suficiente pra você e essa primavera toda, para as flores e os sorrisos. Você pode até dividir o meu lanche e os meus livros, ouvir meus discos e se embalar na minha rede, repleta dos meus sonhos. Você pode trazer muito queijo que eu faço chocolate queimado pra acompanhar. E embalaremos as noites ao som de Caê.

Só não derrete meu gelo inteiro pra deixar a água por beber, escoando num mar de saudade. Deixa eu ser a chuva pra você secar, o teu brinquedo, o teu pião, o teu bicho preferido. Vem, me dá a mão, contigo eu já não tenho medo. Vem, eu fiz café. Para dois. 

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

E.

Ela tem gosto de menta. Alguém pode pensar “Lá vem ela com essa mania de novo de dar gosto pras pessoas”. Lá venho mesmo. Porque pessoas, mais do que serem conhecidas, precisam ser sentidas, no olfato, na audição, no tato, na visão e por que não no paladar?
Foi difícil descobrir o gosto dela. De cara senti a textura. Camurça. Macia se souber acariciar na direção adequada. No lado oposto, irrita. Com ela é sempre meio oito ou oitenta. Ela não é de metades, de restos, de riscos. Não se atira de um precipício sem a garantia de um bom colchão pra segurá-la no final. Não dá as mãos. Prefere andar só pra tomar suas decisões. Mas no fundo não se incomoda de ser acompanhada. Eu apostei no oposto e acompanhei os passos curtos e medidos dela. Juntei meus poucos medos com suas pequenas coragens. Respirei fundo e disse pra ela confiar.

Foi quando senti o gosto de menta. Aquela refrescância, às vezes incômoda pelo ardume, que depois acostuma e passa a ser doce. Doce como bombom de café. Eu sempre termino no café. Mas ela é de menta. Pra ser degustada no amanhecer de uma ressaca moral, no anoitecer de um dia exaustivo, no entardecer calorento de Belém. Ela é de menta. Pra ser saboreada numa conversa descompromissada com gente querida, pra ser descoberta no meio de sorrisos espontâneos. Sem acompanhamentos. Somente ela. Necessariamente ela.

Sobre a minha mais querida "oposta", com sabor de menta. 

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

"Prazer, sou estagiária".

A todos que foram, são ou serão estagiários e, futuramente, professores.


Sinto pelos que lerem esse texto e discordarem, mas eu não consigo viver em um mundo em que professores e alunos sejam "categorias" totalmente distintas. Talvez eu tenha mesmo nascido no mundo errado, ou quem sabe caído de cabeça no chão quando criança. O fato é que não me enquadro, não quero fazer parte desse sistema hierárquico [e patético] onde uns são patrões e outros são empregados.
Bem, todos sabem como funciona uma escola: um diretor, coordenadores, funcionários "faz-tudo", faxineiros, cantinas, pátios, professores e alunos. Professores, aqueles seres intocáveis que detém todo o conhecimento e tem a "missão" de transmiti-lo aos alunos; aquele que tem uma sala para tomar café e água mineral com os "colegas" de trabalho. Alunos, os que vão pra escola pra aprender tudo que a vida fora dela [supostamente] não ensina; como espaço de convivência têm os pátios e parquinhos, onde geralmente só se veem jovens e crianças na hora do recreio ou quando gazetam aula. Na perspectiva da escola: ordem e caos. Céu e inferno. Respectivamente.
Não há vítimas exatas em meio a um sistema tão duvidoso, há só uma ilusão compartilhada e vivida... todos sorriem nos corredores e saem cuspindo veneno ao virar as costas. "Não tem coisa pior que professor". "Aluno é tudo igual. Ô raça". E no meio dessa guerra fria, no susto nos deparamos com mais uma categoria: os estagiários. Aqueles que não têm uma posição certa na cadeia hierárquica escolar, porque ninguém sabe bem o que eles tão fazendo ali.
Desde maio desse ano eu sou mais uma peça dessa categoria. E quer saber? Acho o máximo. Óbvio que, como tudo na vida, tem seus dois lados, mas a vida de estagiária tem me servido pra muita coisa. Por exemplo, o estagiário pode frequentar o pátio da escola à vontade [até porque não é muito bem-vindo na sala dos professores] sem que ouça "Meu Deus, olha a tia de português ali... ta comendo o lanche da escola :O". O estagiário geralmente não sofre com a revolta dos alunos com uma aula chata; ele não precisa participar das reuniões de conselho [e nem pode], que na grande maioria não passam de reclamações e problemas "sem solução". O estagiário pode ser amigo dos alunos e passar tardes inteiras papeando com eles no pátio calorento da escola, sem que o chamem de anti ético, tarado ou enxirido. O estagiário normalmente é jovem, ou tem espírito jovial, o que faz dele uma pessoa mais agradável; ele pode usar roupas descoladas [mas sempre decentes], e não precisa aparentar estar sempre com o guarda-roupa arrumado e em dia com as tendências da moda "escolar". Pode beber água no bebedouro, comer o lanche da cantina caríssima e reclamar do preço, sofrer com o calor da escola com poucos ar condicionados... e por fim, talvez até mais importante, o estagiário ainda é aluno. Também é aluno. E ninguém melhor que um aluno pra entender outro.
Em meio a uma estrutura de céu e inferno, ser estagiário é estar no purgatório. E quem diria que estar aí seria tão interessante? Ora essa, no purgatório não existem santos e demônios. E falo isso no alto da minha ignorância. Mas o purgatório é visto como o lugar do julgamento... pra onde você vai? É meio assim que o estagiário vive. Ou você vai ser professor, ou nunca passará de um "reles" aluno. E aí que você descobre no fundo o mais legal de ser estagiário...ser julgado é o de menos quando a cada aula você aprende algo novo. Você descobre que é possível ser "aluno" dos teus alunos. Afinal, o tanto que você sabe de pretérito perfeito e orações subordinadas, teus alunos sabem sobre tecnologia, arte, cinema, jogos e livros. Sim, abram a boca os leitores espantados... eles leem. E não é pouco. E eles são tão "safos" que conseguem dividir o tempo entre todos os aplicativos do momento e os tijolões de livros e sagas que escolhem. Enquanto nós, intelectuais e professores [jamais generalizando] sequer sabemos quem é o Percy Jackson ou o quanto os Jogos são mais legais se forem Vorazes. O trocadilho foi tosco mas valeu a intenção. O que quero mesmo dizer depois dessa ladainha toda é que no mundo dos seres humanos, não existe hierarquia que torne um superior ou mais importante que outro. Quero dizer que aprender também quer dizer compartilhar, quer dizer admitir que não sabe quando alguma pergunta difícil aparecer, é assumir pra si mesmo, como diria Paulo Freire, que somos seres sempre incompletos. E o que seria do professor sem o aluno? E vice-versa?
Eu espero realmente não ter parecido ofensiva, porque não foi a intenção. Mas eu sou realista às vezes e quando tentei falar desse jeito no TCC, recebi um puxão de orelha, então o jeito é ocupar o tempo de vocês com os desabafos e reflexões de uma estagiária que se forma daqui a uns meses e infelizmente vai sair dessa categoria, mas com certeza não vai sair do purgatório. 4 ou 5 anos de curso não nos ensinam nada além de regras, conteúdos, normas... nos dão "instrumentos". Ser professor mesmo, a gente só aprende sendo. 

quarta-feira, 30 de julho de 2014

Vício ou virtude?


Eu sou uma pessoa terrivelmente viciada. Ah, vai dizer que não me entende? Todo mundo é viciado em alguma coisa. Tem os viciados em vídeo game, aproximadamente entre os 12 e 17 anos, mentais ou físicos; os viciados em séries, nos quais eu me incluo; os viciados em arrumar a casa, um vício que eu adoraria ter; os viciados em ouvir música alta, o que não combina nadinha com a saúde dos ouvidos; os viciados em internet, uma categoria bem comum da atualidade; os viciados em mentir, esses precisam de tratamento; os viciados em nutella, e aqui eu me incluo totalmente; e as pessoas como eu: viciadas em tanta coisa que é difícil até contabilizar.
Como eu já disse, sou uma viciada em Nutella assumidíssima. Também sou viciada em séries. Viciada em comer gelo, em celular, em coçar no nariz, em sorine, em copiar frases e textos fofos pra posteridade, em falar bobagens, em chorar em comédias românticas idiotas, e em mais um milhão de coisas. Mas principalmente, eu sou viciada em me apaixonar. Os super racionais vão achar graça e me chamar de patética, e eu sou mesmo, mas esse é meu modo de viver. À parte uns instantes o que eu entendo de psicologia, acho que os vícios são a forma que a gente encontra de lidar com a vida, seja pra fugir de algo, seja pra anestesiar os sentidos e ficar mais leve pra tomar as decisões pesadas. São coisas que parecem ser boas pra gente, de algum jeito, e precisamos repetir, sem nos dar conta do quanto já precisamos daquilo.
A paixão funciona assim pra mim. Eu preciso sentir as batidas aceleradas do coração, o suor frio, a incerteza da reciprocidade. É uma necessidade. Me apaixonar me deixa viva. Talvez eu me exponha demais desse jeito, talvez eu sofra mais vivendo assim, ou talvez eu apenas me permita. Me permita olhar pro outro e me encantar com a forma como ele tira uma poeira do rosto, me permita descobrir as pessoas, as coisas, decifrá-las, observá-las, senti-las. Porque se apaixonar é isso, não? É o seu corpo reagindo a novas descobertas no corpo do outro, nos olhares, nos movimentos, nas conversas que, por mais banais que possam parecer, se tornam motivos de sorrisos largos, é seu corpo liberando adrenalina para aquilo que desperta teu desejo, seja humano ou seja objeto. E tão intensa como começa, a paixão termina. Com ou sem choros, fica um vazio, uma sensação de que falta algo... e não é “alguém”, é algo mesmo... é um livro que terminou, são as férias que passaram, é aquele cara que parou de te responder ou te ligar, é a garota que se mudou do seu prédio, da sua rua, é a comida que você ama e não tem mais, é a viagem que durou menos tempo do que devia, é a amizade que se desfez,... é a paixão, que já não ta mais ali pra te acompanhar, pra te fazer vibrar, chorar, ascender ou desabar no chão frio do teu quarto.

Mas, como tudo na vida, passa. O vazio logo é preenchido com um novo acelerar do coração e olhos brilhando. Com novas perspectivas, novos sonhos, novos planos, novos textos... Quer saber? De todos os meus vícios, esse é o que me dá mais gás, mais tesão na vida, mais aventura. Afinal, como diria Voltaire, “as paixões são os ventos que enfunam as velas dos barcos, elas fazem-nos naufragar, por vezes, mas sem elas, eles não poderiam singrar”. 

domingo, 20 de julho de 2014

"Sobre o medo de sonhar" ou "A crônica do medo"



É meio óbvio dizer que nós vivemos um constante “vir a ser”, mas às vezes- quase sempre- é necessário lembrar de coisas óbvias. Mesmo que eu não quisesse, minha mente atribulada faz questão de puxar a orelha dos meus pensamentos fúteis diariamente pra lembrar que tenho um problema maior, ou muitos problemas maiores. Eu preciso ser algo, eu preciso ser alguém. Quando eu era pequena, perguntava pra minha mãe por que eu tinha que estudar, ela respondia com o discurso que todo pai sabe de cor: “pra você ser alguém na vida”. Mas, surpreendentemente ou não, eu não fingi que tinha entendido muito bem a resposta e, como boa filha de psicóloga, re-respondi questionando: “mas eu já não sou alguém?”. Esse episódio é lembrado pela minha mãe toda vez que faço algo “memorável” relacionado a estudos (tipo passar no vestibular, etc.). É, eu já era alguém e continuei sendo. Fui alguém quando subi nos palcos pela primeira vez, e também na última. Fui alguém quando, aos 6 anos e numa escola estranha de SP, fui oradora da turma. Fui alguém quando levei ovadas por meu nome ter saído na rádio. E agora... bem, eu devo ser alguém, ainda. A questão não é bem ser ou não ser (como diria Shakespeare), mas sim “quem ser”?
Toda essa baboseira dita até agora não quer dizer nada além dos conflitos que me povoam desde sempre. E eu sei que povoam vocês também. Porque de certa forma a vida não faz sentido sem essa necessidade eterna de algo, essa falta de um “não sei o quê”, sem desejos incessantes, sem sonhos imensuráveis. Talvez eu ande lendo muito de psicanálise, mas... o que seria da vida se a gente não sonhasse? E aí vem o X da questão toda: a gente vive num mundo em que sonhar é tão importante quanto ir ao cinema- diverte, mas não dá dinheiro (a não ser pros donos do cinema). Você cresce ouvindo os “nãos” dos seus pais e depois tem que enfrentar os nãos da vida, da realidade... você sonha em se formar e fazer algo lindo pelo qual você seja extremamente apaixonado, então você encontra o seu grande amor em uma viagem a passeio, tem dois filhos, mora numa casa estilo novela das 8, tem o emprego perfeito, se aposenta, constrói laços inseparáveis, viaja o mundo e morre em paz. Ok, agora é a hora que você acorda e lembra que é brasileiro e já desistiu há muito desse tipo de sonho.
Sonhar ainda não é proibido, mas ta quase lá. Miguel de Unamuno disse um dia que “o homem vive de razão e sobrevive de sonhos”, e provavelmente ele estava sonhando ao lançar essa ideia. No fim das contas, a gente vive de razão e sobrevive dela mesma, porque o que somos nós hoje sem um diploma, um carro e uma casa própria? Cada dia é preciso mais. Já não basta uma graduação, tem que ter a pós; não serve ter dinheiro, tem que ser rico; não basta estar com alguém, tem que tirar uma foto... etc etc etc. E os sonhos? Andam ficando debaixo do travesseiro. A gente deixa pra pensar neles só quando a situação ta crítica, quando as dúvidas voltam a sobrevoar a nossa mente, quando a razão já não parece o suficiente pra nos deixar felizes. É isso aí, a gente esqueceu que felicidade não combina com o “quero mais”, mas sim com “sou mais”.
Não tem uma solução certa pra tudo isso que eu to falando, é mais um desabafo porque eu acordei e lembrei que ainda to atrasando uns sonhos que tenho há tanto tempo. Atrasei meus sonhos porque queria “ser alguém”. Veja só eu, que patética... Onde foi parar a garotinha que sem os anos de estudo já sabia que era alguém?
“Pr’onde foi a coragem do meu coração?”, Fernando Anitelli perguntou e eu respondo: foi ali ser feliz, e só volta depois que o sonho sair do travesseiro e se tornar maior que a razão. 

quinta-feira, 17 de julho de 2014

Nós.

Às vezes eu sou incerta demais. Quase toda vez, eu sei. Mas isso não quer dizer que não te amo. Isso não significa que todas as palavras ditas foram em vão, ou que você deixou de ser o motivo principal do meu sorriso matinal. Na verdade toda essa confusão só me faz ter mais certeza sobre você, sobre nós. Eu ainda me pego sorrindo com a mesma cara de boba cada vez que dizes o quanto eu sou especial, mesmo que seja só pra levantar a moral no momento; ainda sinto as batidas do coração acelerarem quando usas as palavras certas pra dizer o que sentes por mim; ainda penso o quanto esse amor... Esse amor todo que parece não ter fim, é o mais certo, e o quanto isso é louco, mas você me faz crer que existe amor certo e eu o encontrei. Eu lembro todos os dias que esqueci como é a vida que não seja ao teu lado... e como esqueci rápido. Paradoxal. Você ainda é minha única certeza.
Mas esse meu jeito meio perdido é tudo culpa do medo. Sou segura por necessidade, me faço segura. Mas tremo por dentro, morro de medo. Medo do que é certo, medo do que já foi e do que pode estar por vir. Medo da gente também, por que não? Quem é que não tem medo nessa vida? Quem é que não titubeia de vez em quando pra tomar uma decisão?

Eu corro de mim e você se precipita por nós. O que fazer, amor? Eu sei lá... só sei que apesar de tudo eu não vou desistir, não quero desistir. Somos nós, sempre fomos e sempre seremos. Não há antes de nós. Nem pra mim nem pra você. Esse é o nosso agora. É o que nós temos e é pelo que vamos lutar. Segura na minha mão e me faz acreditar que a minha incerteza tem solução. 

terça-feira, 1 de julho de 2014

O guardador de futuros


Talvez sejam precisos alguns anos pra que eu entenda o que de tão raro e profundo existe no teu olhar. O que me prendeu naquela tarde e me desconcentrou do mundo. O que, afinal de contas, me fez dar a volta e mudar de rumo, caminhar sem destino na beira da tua estrada. Por alguns minutos, senti que eu era a única coisa interessante pra ti em meio aquele turbilhão de informações e pessoas... senti que teus olhos contornavam os meus e invadiam minha mente, que descobrias meus medos e minhas dúvidas. Senti que éramos só nós, embora fosse um pouco cedo pra nos tornarmos primeira pessoa do plural.
Naquele dia eu não precisei fazer sentido, não exigi explicações, eu só estava ali e encontrei teu olhar estacionado na minha bolha de incertezas. Os teus olhos de citrino, de âmbar, de tantos futuros guardados. Quem ler isso pode perguntar "mas desde quando olhos guardam futuros?" e eu direi que os teus, sim, como os de ninguém, guardam um emaranhado de futuros que só eu descobri, quando pulei o muro do teu universo particular e passei a caminhar, me equilibrando pé a pé, nas beiradas da tua estrada. 
Me perdoa por te contar, mas apesar de até aqui eu só falar sobre os teus olhos, sobre o que todas falam, foi o teu sorriso que me fez escrever sobre ti. O teu sorriso me fez passar madrugadas em claro esperando um sinal do celular como resposta. O teu sorriso que motivou tantos papos sem assunto, tantos assuntos sem papo. O teu sorriso te tornou tão essencial. Pois eu acho que ninguém vê, assim como os teus futuros, que escondes do lado esquerdo do rosto, um sinal de mistério, de quem aprontou sem ninguém saber... uma covinha. É certo que ela não aparece sempre, nem pra qualquer pessoa. Mas eu vi, quando te pedi a primeira vez pra ver de perto o âmbar dos teus olhos, uma covinha nascendo junto com um meio sorriso, um esboço tosco de quem quer rir mas não pode. 
É desse sorriso, acompanhado da covinha do lado esquerdo do rosto, que eu preciso pra esboçar o meu sorriso de criança que ta conhecendo o mundo agora. Eu preciso do teu encanto. E se você deixar, te ensino a sorrir desse jeito todos os dias ou um pouco mais. Assim quem sabe eu não precise me preocupar com a profundidade dos teus olhos cor de mel escuro.  

domingo, 29 de junho de 2014

Allan, é um nome bonito




"Você foi tão cedo
A vida é um mistério, ela não diz por que
Mas tua semente hoje está presente
Vai florescer"

(Catedral)

Frágil. Talvez não seja a palavra certa mas é a que melhor se encaixou agora. Não há um dia sequer na vida em que não estejamos frágeis. Corremos no dia a dia pra conquistar coisas que queremos ou que nos fizeram querer... pra que? Se é tudo tão frágil. Se por um beijo, uma rajada de vento ou um tropeção na calçada tudo vira poeira e não sobra ninguém pra contar história? 

Eu devia ter 10 anos e uns trocados quando nos apresentaram. Foi preciso virar a cabeça alguns graus atrás pra olhar aquele homem esguio, moreno cor de jambo. Mas apesar da altura espantosa e do perfume indiscutivelmente sedutor, foi o sorriso que prendeu meus olhos naquele rapaz. Ele me abraçou daquele jeito que são os abraços de quem acaba de se conhecer, meio incertos, meio caídos. E então segurou nas minhas mãos e após aprender o meu nome pela boca da minha mãe, ele disse com aquela voz doce que nada combinava com o porte - Alana é um nome bonito, né xará?
É. Na hora eu era bobinha demais pra entender a piada. Óbvio que meu nome era lindo porque parecia o dele. 
Ele era um cara legal. Não, eu to mentindo. Me desculpem, é a situação que me deixou assim. Ele era fantástico. Tinha o sorriso mais sincero e uma alegria de dar gosto. Sonhos. Muitos sonhos. E determinação para realizá-los. Ele era o tipo de pessoa que inspira a gente. E hoje eu me arrependo infinitamente por nunca ter dito isso a ele. 
Sabe, a sensação é péssima e eu não desejo pra ninguém. Ar-re-pen-di-men-to. Não há lágrimas que paguem uma palavra não dita, um olhar não trocado, um sentimento que não foi exposto. No fundo acho que ele sabia o quanto eu gostava dele, acho que ele notava como eu gostava de encontrar com ele nas casualidades da vida, acho que ele sentia o quanto tínhamos de parecido- além do nome. Os abraços evoluíram pra apertos grandes de quem fica muito feliz de se ver, as piadas mudaram para perguntas rotineiras... "Como ta na escola? Ai, arrasou. E os gatinhos?". E o carinho cresceu, e como. 

Hoje ele se despediu do mundo, mas não conseguiu me dar um "tchau, Alana. Até qualquer dia". Tudo bem, eu entendo, acontece. E aí eu fiquei frágil. Todos ficaram. A fragilidade tomou conta de todas as pessoas que ganhavam força ao ver o sorriso dele. E no íntimo de cada um, todos se perguntam "pra que então tudo isso? Pra terminar assim?". Não há uma resposta certa pra isso, não há um caminho a se seguir... mas ele, como boa inspiração de vida pra todos, sabia muito bem o pra que das coisas. E hoje, infelizmente só hoje, eu garanto a vocês que, se eu puder ver outros sorrisos como o dele no meu caminho, valerá a pena a fragilidade do final. 

Vai com Deus. Até logo. Foi bom te conhecer.
Ah, já ia esquecendo... Teu nome é bonito, Allan. 

domingo, 18 de maio de 2014

Sobre as gotas de esperança



Acordei um dia e o mundo estava às avessas. O teto era chão, os lustres eram postes, as pessoas se olhavam de cabeça pra baixo. Além disso, os valores também se inverteram... era gente pegando coisa de outra gente; jovem sentado e idoso em pé; e as ruas eram de saqueadores, quem quisesse andar por ali tinha que ter algo de valor pra trocar por alguns passos de caminhada. A gente andava sobre o azul do céu e ficava escondido na sombra do cinza do chão. Seria poético se não fosse trágico. Mas como o ser humano é bem flexível e adaptável, a gente se acostumou. Eu confesso que ainda fiquei com aquela sensação estranha, a pulga atrás da minha orelha dizendo que era tudo um pesadelo e que uma hora ou outra alguém mostraria uma brecha do nosso mundo de verdade, da nossa civilização. Falando nisso, lembrei de um poema que diz mais ou menos assim "civilizado é quem aprendeu a cantar 'parabéns pra você' e sabe o que é contrato: você isso e eu aquilo com assinatura embaixo". Vai ver fizemos um contrato com algum concretista e estávamos brincando de experimentar esse jeito estranho de levar uma vida fake. 
Mas aí, quando já fugia de mim a amiga esperança, eis que me surge uma chama, aparentemente tão fraquinha, mas que despertou todo brilho de outrora nos meus olhos... Tudo se resumiu a uma manhã, algumas crianças, um dedo levantado e um diálogo. Apresento-lhes:

Os três fulanos brincavam com aqueles jogos de montar que lembram os legos do nosso tempo, quando a professora os chamou pra arrumar as mochilas e sentar nas cadeiras. O jogo ficou abandonado do jeito que tava - desajeitado - no meio da mesa. Uns minutos depois, a voz da professora sobressaiu...

Prof - Quem era que tava jogando aquilo ali?
Bia - Era o Samuel e o Pedro, tia. 

Os dois se olharam com aquela cara de "droga, ela descobriu!" até ouvirem o comando pra levantarem e irem ajudar a Bia a arrumar tudo. Duas trombas se formaram, mas as perninhas caminharam até lá. Enquanto isso, um dedinho levantado no meio dos sorrisos maldosinhos de quem gosta do azar alheio. A professora passou a palavra e recebeu a surpresa.

Matheus - Eu também, tia!

Ninguém pediu, ninguém mandou, ninguém sequer olhou pra ele na hora de encontrar os culpados do crime do lego bagunçado. Ele só levantou a mão. Ele só sabia que ele também tava lá. Me remeto agora a outro poema que dizia que "Herois são pessoas que fizeram o que era necessário fazer, enfrentando as consequências". Pra ele era necessário, era o certo e ele fez. Aos 6 anos de idade. Ele também já sabe cantar "parabéns pra você", mas nunca ouviu falar de contrato. Ainda assim, de todos que eu já conheci há 20 anos, aquele serzinho de 6, foi o mais civilizado. Quem sabe ele não seja parte do caminho pra gente sair do avesso?


Obs: O fato foi real, mas os nomes das crianças são fictícios em respeito a cada uma. Imagem meramente ilustrativa.

segunda-feira, 12 de maio de 2014

Pães

Quando eu tinha em torno de 7 anos ela me surpreendeu com um bouquê de rosas. Eu estava radiante e ela emocionada, entrei em casa com lágrimas nos olhos porque além da felicidade de ter realizado um sonho,ela teve orgulho de mim. Era minha primeira apresentação de dança, minha primeira superaçao.
Quando eu tinha 2 anos de idade ela me escolheu. Desde bem antes ela tinha escolhido, claro, mas nesse tempo ela escolheu de novo, confirmou perante tudo e todos que nao importava o que houvesse, seriamos nós duas, para o que desse e o que viesse. Fomos. Somos.
Aos meus 17 choramos juntas. Ela me olhou com os olhos brilhando de quem acima de tudo acreditava em mim, enquanto eu chorava em desespero achando que a reta final tinha chegado e eu tinha derrotado... como sempre, ela estava certa. Ela sorriu gritando entre os dentes a felicidade obvia do dever cumprido, enquanto isso me abraçava e dizia "voce passou, filhaa!!!". Era Letras. E eu tive a graça de poder dizer sempre pra todo mundo que ela me apoiava.
Nos meus 20 anos, perco a conta de vezes que ouço como somos parecidas.. de jeito, de aparência, de talento. É, eu confesso que pra ela sempre costumo dizer que só puxei os defeitos - às vezes é difícil admitir que nem todos os defeitos que se tem derivam de alguem - mas a verdade é que de tudo que eu mais admiro nela, o que mais me orgulha ter resquicios de herança é a determinação.
Ela nao usa capa nem armadura, mas é mais forte e poderosa que qualquer mulher maravilha.
Ela me aguentou por 20 anos e fez o que pôde - e o que nao pode tbm - pra deixar uma sementinha boa dentro de mim. Ela escuta meus desaforos e suporta minha distância, ela carrega o peso das minhas lágrimas e ainda assim consegue ser minha "fã". Ela me ensinou as melhores e piores coisas da vida. Me protegeu, e me fez saber lidar com o mundo. Foi meu papai noel, e a fada do dente. E ainda é criança junto comigo no dia 12 de outubro.
Ela me ensinou que todo mundo é igual e me fez ver, desde pequena, que amor é sempre amor, independente de cor, raça, credo, condição social ou sexual; ela me mostrou que familia nao tem tamanho certo ou quantidade estipulada; me provou que pra ser pai precisa bem mais do que ter um gogó ou ser o machão; ela me ensinou que nao se deve dar o peixe, mas ensinar a pescar; com ela eu aprendi a pensar. Eu li. Escrevi. Questionei. E chorei ao escrever essa carta/depoimento/texto ou sabe-se la.
 Ela tem o coração do tamanho do amor, e de fato, se tem uma coisa que elas estão sempre e super certas é que a gente so vai entender que amor é esse quando estivermos no lugar delas.

sábado, 10 de maio de 2014

Sobre Oz.



"Me tira da cartola e devolve minhas asas!!"

Acordei pela décima vez no mesmo ano, de um afogamento. Ele me fazia respirar só de segurar minha mão. Ao lado, uma cartola e um instrumento musical... e um olhar brilhante como um cristal. Era meio humano e meio mágico e com uma única mão me socorreu do mar. Respirei profundamente e olhei ao nosso redor... flores, na outra mão as minhas asas. "Como ele fez isso?", eu me questionei, mas quando ele esboçou o sorriso doce e admirado acompanhado dos olhos mais brilhantes que eu já vira, entendi. Sorriu e saiu, me deixou a sós com tudo aquilo que compunha a figura dele. Na cartola, encontrei uma carta com algumas descrições... Ismália. 
Ele me tirou da cartola e devolveu as minhas asas. Me (re)compôs. Me deixou ser livre sendo dele. E eu aceitei. Deixei uma carta em resposta no mesmo lugar antes de alçar voo novamente:

"Oz, não me deixa afogar de novo nas minhas gotas de desilusão. Traz teu brilho quando necessário pra me resgatar dos escombros da solidão. Me deixa ser a parte que proteges e eu então serei a parte que te falta. Obrigada. Da sua, Ismália". 


Para ele, meu mágico de Oz, que não tem um reino fixo e desviou a estrada de tijolos amarelos. Pelos dias mágicos que me proporciona e por ser meu protetor nas linhas incertas de Ismália. 

quarta-feira, 7 de maio de 2014

Alone.



Ele tem olhos de quem tem muito a dizer, mas perdeu as palavras porque as jogou no caminho de casa tal qual migalhas de pão, com medo de se perder. Meio João, meio Maria. Ele parece solidão, mas me lembra euforia... tem cheirinho de fim de festa, de resto de bolo, de balão estourando, de roupa suja de coca, de brigadeiro espalhado, de marmita que a gente leva pra casa pra comer com café no dia seguinte. E como ele combina com café!
Ele tem um jeito bonito de ver as pessoas. Ele diz que eu tenho gosto de felicidade. E eu digo que ele sou eu, e eu sou ele. Hoje ele me agradeceu, sabe-se lá por que e me arrancou uma lágrima que caiu gargalhando - poucas pessoas conseguiram isso. Mas a gente não tem que agradecer por cativar as pessoas. A gente é pros outros um reflexo do que são pra gente. Ele me ensinou a ser ele, eu o ensinei a ser eu. A gente aprendeu a caminhar junto, tornamos nossas diferenças oportunidades de invadir o novo... a gente se deixou amar. Ele, do jeitinho quieto de quem não tem muitos amigos, consegue trocar uma vida comigo pelo olhar. Eu, do meu jeito tosco e dramático e exagerado de quem precisa sempre de um colo, encontrei nele o meu abrigo, o meu afago. Ele é meu protegido e minha segurança. É a paz da minha confusão interna. Sem querer ser pretensiosa, mas pra falar dele me arrisco a embaralhar as palavras de Lispector e dizer "Ele faz de uma borboleta uma epopeia. E é inortodoxo". 
Ele sou eu, eu sou ele. 

sexta-feira, 18 de abril de 2014

Prefácio

Ele chegou de repente e invadiu todas as portas do meu coração. Me conheceu e reconheceu, me sentiu e me descreveu como ninguém jamais o fez.

E, como bom observador que é, ele escreveu o prefácio da minha vida...

"Alana é o sorriso de uma criança ao ganhar um algodão doce na primeira ida ao circo, é o olhar de uma criança ao entrar pela primeira vez num cinema, é a visão de uma criança em meio a uma guerra civil, Alana é a criança da sociedade adulta e superficial, Alana é a listrinha colorida do creme dental, é o nariz vermelho do palhaço, é a cereja do bolo, é a flor do deserto... Alana é um sentimento que está em cada um de nós." 
(Michell Marques)



2 anos

No meio de um dia; no meio de uma aula; no meio do amor... esse poema me chegou. 



terça-feira, 15 de abril de 2014

Revirando passados


Hoje eu abri o meu baú de saudades e encontrei ele ali, intacto, lindo- como sempre -"fazendo sala" pro passado que eu pensei ter enterrado no fundo do quintal da memória. Revivi em segundos todo aquele emaranhado de pensamentos que a saudade me causa, voltei a pé àquela estrada que ladrilhei com ele nos dias em que o Sol não saía de casa. Mas então, em ressonância com o timbre daquela gargalhada que eu lembrava mentalmente, veio o inverno. A voz dele, que tanto me acalmara e me livrara dos abismos do cotidiano, a voz que eu apreciara nas madrugadas a fio sem preocupação com o dia seguinte... aquela voz trouxe o inverno consigo e me congelou. 
Não sei definir se a saudade tem mais habilidade em machucar do que o inverno daquela voz do outro lado da linha. E do outro lado do mundo, eu soube que o amor e amizade caíram num labirinto de gelo e esquecimento, onde nem que eu me jogasse no foço mais profundo, alcançaria. O inverno atravessou meus ouvidos e dominou cada parte do meu corpo. O gelo- tão frio, mas quebrável ao menos toque -tomara conta de mim. E antes que qualquer balde de lágrimas fosse capaz de me derreter, tranquei novamente o baú. Preferi deixar aquele passado quieto novamente, pra não achar que pode fazer visitas sem avisar. Deixa ele lá. Agora sim, deságuo, até evaporar, deixando essa saudade fugir com o ar.

Texto publicado em 13 de junho de 2012, no Blog Palavreando

segunda-feira, 7 de abril de 2014

Sobre coisas e materialidades

Me peguei pensando sobre a importância da não-materialidade-das-coisas e tive uma enorme vontade de te ligar. Eu sabia que me entenderias bem porque assim que tudo funcionava pra gente: a gente se ligava, falava sobre os grandes e pequenos problemas da humanidade, ria hum pouco, refletia, e terminava de sempre falando poeticamente sobre a gente ... de um jeito que eu nunca saberia explicar ou escrever. 
Pois é, mas voltando a falar das coisas não materiais e do quanto elas são importantes... Bem, a culpa é toda tua. Coloquei no aleatório da minha playlist e o que tocou? Uhum, a nossa música. A música que um dia tocaste em melodia e perguntaste o que eu achava, pra depois completar com uma letra linda e me dar de presente. Ah menino, sabes o que significou aquilo? Acho que sabes... Eu sempre fui a mais sentimental de nós, a mais boba, a mais envolvida por palavras. Me ganhaste com elas, te despediste por elas. 
Pensar sobre a importância da não-materialidade-das-coisas me faz ter uma saudade enorme de ti, da gente, daquilo que nunca foi um "nós" mas poderia ter sido, daquilo que eu costumo contar pras pessoas como um conto de fadas às avessas. A história de uma Ismália e um Pequeno Príncipe, será possível?
Olha que coisa, eu aqui de novo, dois anos depois da tua partida, me perguntando a mesma coisa de antes, de sempre.
Ah, menino, por que me lembras tanto da importância da não-materialidade-das-coisas? Por que ainda fazes tanto parte por toda parte? Por que ainda é tanto tu? Acho que a resposta é só uma, sem titubear: apesar de passageiro, és uma parte-não-material-das-coisas, do amor. 

sexta-feira, 4 de abril de 2014

Regozijo



De todos os males, o riso é o pior.
O riso altera e trapaceia. Dribla. Exagera. O riso desaba, encharca. É enchente. É cheio de gente. O riso é enfático e chama atenção. O riso quebra. O riso é sem siso e sem juízo. Não tem regras.
Interrompe. Rompe. Descumpre. Descobre.
O riso é torto e mostra os dentes. Mostra as cores e as raças. O riso iguala. Multiplica. O riso une.
É arma. É escudo. 
E de tudo, o pior: o riso alegra. 

domingo, 16 de março de 2014

Minúcias


Gosto de saudade. Aperta o peito e fica entalado na garganta. Te faz suspirar, lembrar, viajar. Depois de muito esforço sai em forma de lágrimas e sorrisos descontrolados. É agridoce.
Desde que ele chegou a vida ta meio assim... Ele me pintou sorrisos e me ofereceu um lugar na escada. Eu subi e a garganta começou a engolir em seco. Estranho essa coisa de sentir alguém – você de repente se depara com um gosto na boca, um gosto sem nome e que só cabe em uma única língua. Gosto de saudade, pois é.
Gosto de algo que já devia estar ali e sabe-se lá porque não estava. Gosto de chuva passada. Gosto de reticências. Gosto de coração acelerado. Gosto de primeiro dia de aula. Gosto de corações que se conhecem mesmo à distância. Gosto de lágrima caída. Gosto de olhos que sorriem.
É, ele tem gosto disso tudo, mas resumido num gosto só. Ele é capaz de me fazer feliz por estar perto e por ficar bem. E nem precisa saber disso, porque talvez perdesse a graça. Ele sabe, no fundo sabe. Eles sempre sabem.

Suspiro. Lembro. Relembro. A garganta entalou, umas lágrimas se formaram na minha canoinha embaixo dos olhos – o que, por sinal, ele tem igual – e o gosto de saudade bateu forte na boca. Pois é, ele chegou. 

quarta-feira, 12 de março de 2014

Vício



"Se tu me cativas, nós teremos necessidade um do outro"


- Vem cá, me dá um abraço?
Foi só o que ela disse logo que ele chegou na sala. Ela não precisava de nenhuma resposta feita de palavras ali. Ambos sabiam que só era preciso um abraço. Um daqueles.
Ele olhou em volta, procurando não achar indícios de um impedimento determinado. Se aproximou de manso, ela sorriu daquele jeito tosco de quem pensa "como ele faz isso?" e esperou. Ali, nos muitos centímetros que separavam os dois corpos, havia mais coisa do que se pode pensar. Uma raposa e um príncipe. O principal: haviam cheiros. Dois aromas únicos e intensamente perceptíveis para os dois.

Ela amava o cheiro dele. A mistura doce, aparentemente inocente, anunciava um toque especial de pimenta, de cheiro de homem feito, cheiro de segredo - algo que ela jamais iria contar.
Ele amava o cheiro dela. Um aroma que por si só anunciava a força da mulher sem defesas, cheiro de mato, de fantasias, cheiro de gente estranha que chega pra ficar.

Chegando mais perto já dava pra ver ela inclinando a cabeça na posição certa que encaixaria na longa curva entre o pescoço e o ombro dele. O melhor lugar pra sentir o vício do aroma. Ele não se preocupava tanto, só sentia. Mulheres, como sempre, detalhistas demais.
Então ele chegou e ela se afundou naquela sensação única de abandonar o mundo inteiro por um abraço. Ele riu de leve e abafado com a boca encostada na nuca dela. Todas as forças estavam nos braços. Os olhos fechados, os corações conversando sobre qualquer coisa que não fizesse sentido. Ninguém precisa fazer sentido dentro de um abraço.
Os aromas se misturaram e ela não se incomodava com excessos. Queria mais, sempre que pudesse.
Se largaram como se os braços ainda puxassem um ao outro pra continuarem escondidos ali. Era bom. Era leve e simples. Os olhos dela diziam "obrigado" e os dele sequer precisavam retribuir, pois o sorriso bobo de sempre já o fizera.

4 segundos. Um abraço. Um mundo que desapareceu. Um esconderijo. Dois aromas. Um carinho. Sempre poucas palavras. Não há o que dizer quando se demonstra sentimento em atitude.
Na despedida, pouco tempo depois, um lamento mental: "quando vai ter outro de novo?". Assim que der, veio a resposta.

Enquanto isso, abstinência.

P.S.

"Ela é como uma carta de amor" - foi a ideia que me veio em mente quando me indagaram. 

Em seguida, lembrei do poema de Pessoa que diz "todas as cartas de amor são ridículas"... Ora, e por que não? Ser ridículo, afinal, é não seguir convenções. Assim ela é. 

Uma carta de amor escrita ao pé da árvore, sentindo a brisa... quando de repente, um pingo de uma chuva passada cai das folhas sobre o papel. Ele enrijece um pouco, mas a fricção com a caneta suporta.

Andando, ela é uma nuvem que forma desenhos... Ela flutua. Brinca com o chão como se não houvesse limites para caminhar com seus minúsculos pés em um solo imaginário. No fim das contas, o chão de verdade é lugar pra quem não tem a mente grande como a dela. Ela não tem jeito. Desajeito. 

A menina que parece uma carta, que tem muito de amor, que é tranquilidade e paz, entrou pela minha porta e irradiou a alegria aos meus dias. Contrastou com meu "mundo da lua", trouxe à tona a infância dos meus problemas, me fez sorrir uns porcento a mais. 

Mas eu sei que, como o vento, ela vai passar. Gente como ela não pode criar raiz num solo só, precisa desfilar o mundo saindo do lugar, criando novos lugares. A mim, resta guardar esses dias de sol na lembrança, quem sabe um fio dos cabelos cor de fogo baixo. Ou tentar segurar o cheiro de papel de carta num vidrinho colorido que eu abra de quando em vez pra sentir de novo toda essa mistura tranquila que ela me traz. 

Inspirado livremente na "carta de amor" dona do blog De boa com Débora

quinta-feira, 6 de março de 2014

.



Ele tem os olhos de ressaca. Olhos de criança que acabou de acordar e ainda não sentiu cheiro de café. Ele é meio criança também, no jeito e na voz. No toque é um homem com sede de conquista; nas palavras é um velho e apaixonado escritor que as domina como se fossem amigos há muito tempo, trocam figurinhas e afinidades e juntos constroem obras primas, que a gente convencionou chamar de textos.

Ela não saberia explicar, mesmo que alguém pedisse. Foi rápido e sequer fazia algum sentido. Quando ele apareceu, ela ainda não estava pronta; ele veio com lápis e papel na mão e com o olhar mais seguro de quem sabe o que faz. De fato ele sabia. No primeiro toque ela se deixou guiar, mas apenas observou de longe o que aquele garoto magro fazia de tão interessante pra que ela não conseguisse desgrudar o olhar. Poucas palavras, uma distância mínima capaz de transmitir o calor um do outro.

Dali em diante só foi preciso um pouco de coca e um chocolate, detalhes pra outro conto qualquer. As madrugadas já não eram tão frias, solitárias ou assustadoras. Eles estavam sempre acolhidos pelo intermédio entre lua e sol e recheavam esse espaço em branco com conversas sobre o nada, risadas e algumas prosas poéticas. Ela vinha com o café e ele completava com o leite.

Afinidade é um negócio estranho de descrever em palavras. Talvez baste dizer que eles riam o mesmo riso e choravam as mesmas lágrimas, pois eram crianças no tempo errado. Em pouco tempo, ela se encantara com o jeito único que ele tinha de sorrir com os olhos e com aquela mania chata de ficar repetindo a mesma coisa milhões de vezes só pra encher o saco... “egua não, mano... não mano, egua. Égua não, mano”. Ela já sabia que ele não podia comer doce e amava empadão e pão de queijo. Ah, sem esquecer a coca zero. Nossa, ele era doido por essa maldita coca zero. Ela também se encantava todo dia com a risada meio forçada dele ao telefone, e com o talento pra ser garoto propaganda da tekpix. Ela gostava de como ele a fazia rir e do quanto ela se sentia leve falando com ele. Ele era o “meu bem”.

Ele, ao mesmo tempo, deve saber que ela é uma idiota na maioria das vezes, por não ter coragem de dizer o quanto ele é importante e quão admirável ela o considera. Ele também deve desconfiar de todas as vezes que ela morre de ciúmes porque ele deu mais atenção a alguém do que a ela, e provavelmente sabe da vontade inesgotável que ela tem de se esconder no abraço dele quando se encontram. E ele sabe, com certeza, o quanto ela o acha um dos caras mais incríveis que ela já conheceu, embora panaca quase sempre.
No fundo, ele sabe com todo o coração, que ela o ama. Mas não pode dizer isso, pois ela jamais admitiria. Nem mesmo após passar a madrugada tentando escrever as melhores palavras e perdendo-as por todo canto do quarto... nem assim ela admitiria.

Pra ela, aqueles olhos de ressaca que riem sozinhos, aquelas mãos de um homem descobridor e aquele jeito de criança levada só fazem sentido se forem mistério. Segredo de dedinho, ninguém pode saber. De manhã, todos os dias, só na mistura do café com leite, algum mistério é revelado. Por hoje, isso basta.

Texto dedicado ao meu bem, pela comemoração de mais uma década de santiaguisses. 

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Coffe Break

Como um café. Amargo ou doce, sempre indispensável. Assim ele era, assim ela o considerava. Alguns dias uma dose a mais, outros uma dose a menos. De vez em quando uma overdose não faria mal a ninguém. Já teve uma overdose de café? Pois ela já, ela sabe bem como é isso e a ressaca que gera depois. Não é bem a ressaca dos olhos caídos e peso no corpo. É uma ressaca que traz um resto de sorriso esboçado no canto da boca e uma gargalhada movida por lembranças. Ressaca que vem com bom humor e olhos brilhantes, disposição e muitas mensagens por ler. Tudo ao contrário, sim. Quem disse que eles seguem um padrão?

Naquele dia ela acordara com o som do “bom dia” dele pelo celular. A “campainha” anunciava que o café já estava ali, servido, pronto pra outra. Ela, com o rosto ainda borrado da noite anterior, fitava atentamente as mensagens da madrugada tentando entender o porquê, o como, a razão de tanto gostar, de tanto querer bem. No meio da leitura ela engoliu em seco e sentiu o ardume das inúmeras doses de vodka ainda remanescentes no organismo. Ela queria o café, amargo. Precisava dele. Mas a culpa não permitiu que aqueles dedos minúsculos respondessem algum sinal de afeto. Somente o silêncio.
Do outro lado da cidade, ele esperava ansioso por qualquer palavra, mesmo um xingamento ou um pé na bunda. Esperava que ela se desse conta do quão certo ele seria pra ela, do quão necessária ela era a ele. Respirou fundo; um gole de suco; uma mordida no pão. Ela gosta de chocolate, ele lembrou. Quem sabe uma visita? Não. A liberdade é uma das normas estabelecidas, apesar de já terem quebrado todas as normas. Mas naquele dia, foi a melhor escolha.
Banho. Como ela não tinha o café – banho. Água fria e uns minutos de reflexão. Não havia arrependimento naquele olhar dissimulado, sedutor. Havia culpa, até demais, mas o instinto sempre se sobressaía. Corpo. Fogo. Desejo. Telefone. Meu Deus, o telefone. Tocava... Ele não resistiu.
O bom dia agora era mais do que palavras escritas na caixa de entrada, ela sentia sua respiração e a euforia no tom da voz. Ele sentia saudades e era recíproco, mas como explicar o gosto do álcool na garganta ou o vestido rasgado que ele sempre pedira pra ela usar quando saíssem? Ela não era a certa. Ele sabia. E ele era somente o café. Sempre o café. O indispensável café. Naquele dia, apesar de tudo, ela cedeu – só uma dose, no fim da tarde, nada mais. 

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Ocaso ao acaso



Foi e não foi por acaso. Ele chegou, ela estava disposta. Como é mesmo aquela estória? "Os opostos se distraem, os dispostos se atraem". Pois é, foi quase assim. Ele discreto a passos curtos e ela exagerada, ocupando todos os espaços. Ele tinha uma mochila na costa e um milhão de segredos. Ela, um sorriso no rosto e sonhos, grandes sonhos. O que tinham em comum? Um tesouro e o desejo de alguma vitória, afinal uma vitória é necessária depois de tantas decepções. E ela, que estava disposta. Ele eu jamais vou saber. Mas ela... depois de dias a fio trocando cumplicidade e semelhanças surpreendentes, acordava esperando um "bom dia" que fosse; prendia os cabelos imaginando o que ele diria; escolhia as roupas tentando encontrar o ponto certo do agrado dele. Foi rápido demais. Intenso. 
Ele não era perfeito, não chegou de cavalo branco e brasão no peito. Mas era ele, sabe? Há algumas semanas era só ele. Descobrir um amor na madrugada não era o sonho de ninguém, mas era agora o tesouro deles. Opa, quase esqueço o tesouro. 
Ambos sabiam como ninguém, domar as palavras. Imagina só, dois domadores de palavras. É claro que ele tinha mais habilidade, domava como um maestro que rege a orquestra mais coesa e encantadora. Ela perdera as palavras num caminho que não sabia direito qual era e pra isso ele estava ali, disposto também, a guiá-la pelo caminho de volta. Ela tinha medo enquanto ele era recheado de grandes coragens. Opostos dispostos. Se atraíram.
Mas o destino é traiçoeiro e não prevê finais felizes pra amores imprevistos, inconsequentes. Talvez se realizasse, talvez não. Quem sabe os dois sentissem o mesmo e só faltasse a chance de dizer. Como saber? Só se sabe que se encontraram de vez em quando por aí, em meio algumas tempestades. Mas como exímios domadores de palavras, a vida para eles não se resumia a alguns esbarros de meio de caminho, a vida fazia mais sentido quando frases e versos se sobrepunham aos olhares, quando o sentimento passeava pelas entrelinhas do texto.
Ouvi dizer nas minhas andanças, que um dia o pôr-do-sol se fez diferente, e bem ali pertinho dele estavam um casal com papel e caneta, trabalhando duramente para transformar em arte o que apenas parecia mais um dia. Desse dia nasceram um poema e uma crônica, fruto de um amor de improviso num fim de tarde qualquer, num fim de sol. Foi e não foi por acaso. 

domingo, 16 de fevereiro de 2014

Desacato



Hoje acordei pedindo pra ser poesia. Abri as janelas e numa baforada de vento às 10 da manhã, eu quis-porque-quis ser poesia. Vai me entender. E então pra todos os lados que eu olhava, suplicava. Pode parecer bobagem, mas queria ser doce e forte como as linhas de uma poesia. Queria poder rimar aqui e ali, e ser alvo de tantos sorrisos e olhares encantadores dos leitores. Queria dizer o sentimento com  habilidade. Queria aprender essa magia de ser delicada e fina sem perder o domínio da palavra.
Mas eu nasci prosa, em todos os sentidos possíveis. Prosa em gênero, número e grau. Prosa de ser e de escrever. E não tenho jeito. Não tomo jeito. Não sei rimar A com B, nem manter as coisas em seus níveis. Não sei nada da elegância e odeio seguir as regras do jogo. O que fazer comigo agora? Não vou ser só um pedaço de texto rabiscado no canto de uma folha de caderno qualquer. Não posso ser só isso... Alguém me finaliza, por favor? Porque eu já perdi a linha, já pulei o parágrafo, já não sei como me terminar, se é que isso é possível. Preciso de mais papel e caneta, pra não ficar restrita às mensagens de texto pela manhã, aos emails respondendo cobranças, aos pedaços de prosa jogados por aí. Eu quero ser mais, e preciso que alguém me escreva. Ninguém disponível? Eu já imaginava...
Então ficamos assim, deixa que eu me escrevo mesmo. Mas depois não reclamem, das linhas tortas, da deselegância, do vocabulário que esqueceu de ser politicamente correto. Nada aqui é correto, às vezes nem a ortografia... Portanto, me deixem quieta me reescrevendo. Isso mesmo,  vou ter de começar de novo, reaprender a ser prosa, porque na tentativa de ser poesia, eu perdi o foco ainda mais.

Publicado em: 18 fev 2012

A rainha e o plebeu

Ele escrevia contos de fada sobre ela. Fazia dos cachos castanhos o travesseiro de suas palavras. De lá, elas brotavam sorrateiras para cada parte do violoncelo que, para ele, o corpo dela representava. Nas sobrancelhas levemente arqueadas, as palavras faziam-na pôr-do-sol, início e fim ao mesmo tempo, abrindo espaço para o eclipse que aconteceria mais adiante. 
Nas pupilas dilatadas, ela era o dragão fêmea que inescrupuloso cuspia fogo e fumaça no quarto vazio de tudo que não fosse os dois. Os lábios cobertos do mesmo vermelho da noite anterior eram, na fantasia das palavras dele, a perdição de um reino distante com guerreiros barrando a livre entrada para a língua doce daquela mulher.
Pouco a pouco, como um rio, as palavras desaguavam pela pele morena de sol, até chegarem ás cascatas formadas por seus seios descobertos. Ali ela seria fada, sem varinha, com condão natural surgindo cifrado pelo violoncelo. Quando enfim o umbigo. Redemoinho. A armadilha de uma bruxa para fazê-lo perder-se no caminho. Embriagava-o de todos os doces perfumes dantes derramados ali. Até que, tonto, ele alcance rastejante o Monte de Vênus. O lendário. O fruto de outro conto, onde a fantasia ultrapassa o limite entre bruxas e fadas, onde ela é rainha e ele plebeu- destinado a escalar cuidadosamente o monte a mando de sua ama. 
Daquele ponto em diante o rio perde seu rumo, o conto de fadas torna-se labirinto estendido pelas longas e grossas pernas da musa daquela história. E o poeta então acorda, com mais um texto incompleto, na mesma posição em que começara a ladainha. Sentado na sacada a admirar sua princesa que dormia a sono leve em seu castelo, do outro lado do reino, do outro lado da rua. 

sábado, 15 de fevereiro de 2014

Tudo novo. De novo.

Recomeçar. Palavrinha difícil essa. E nem tem a ver com escrita ou pronúncia... difícil de fazer. Recomeçar é trabalhar com o diferente e o diferente é assustador. Recomeçar é usar o passado a nosso favor; trilhar um novo caminho mesmo quando se está no meio de um outro; apagar e fazer de novo; riscar por cima; enxugar as lágrimas e sorrir de novo. Recomeçar é remexer no baú e colocar cada coisa no seu lugar.

É claro que eu tive medo. Quase desisti, mas algo me motivou a isso. Escrever sempre foi libertador, sempre foi as minhas asas. Escrevendo enlouqueci. Escrevendo sonhei. Pendi como anjo em busca da lua no céu e no mar. Há quem diga que não passei de palavras jogadas no papel. Há quem acredite que existi. Sim, existo. Como Ismália que precisa descobrir mundos através do luar, eu existo. E voltei, recomeçando, me refazendo, juntando os retalhos das histórias que conheci pelos mundos que atravessei. Voltei pra recriar, ser Ismália novamente.

Ser um pouco poeta e um pouco louca, porque disso eu não quero ser livre.