sábado, 27 de junho de 2015

Casualidade



Entramos de mãos dadas naquele que sempre foi um dos meus lugares preferidos em um shopping, a livraria. Olhei em volta, cruzei a vista com outros leitores que ali estavam como eu, sempre procurando algo que não se sabe bem o que é, aquilo que chamar atenção. Mas de repente, me deparo contigo distraído com uma HQ na mão. Encantado. Encantador. Teu perfil me parece tão familiar e distante ao mesmo tempo. Observo cada traço... os sinais espalhados pelo teu rosto, a barba por fazer, os cílios que eu daria tudo pra que fossem meus. Observo tuas mãos, macias e certas do que querem, dessa vez segurando firme não minha cintura ou meu rosto, mas aquela edição encadernada que já não lembro qual era. Teus olhos brilhavam. Ah, como é lindo o brilho dos teus olhos, ainda que de perfil. Como é lindo o traço que eles fazem quando sorriem... sim, teus olhos sorriem e dizem coisas lindas. E eu assumo meu papel de babona observando o tracejado mudar a cada expressão diferente, um entreaberto, um arregalado ou fechado por timidez.

Em seguida parece que alguém te cutucou e percebeste que eu tava em outro universo enquanto te olhava. Esperto como és, entendeste tudo. Me olhaste de volta com aquele olhar que toda mulher queria poder fotografar só pra repetir a sensação de ser única mais vezes. E um esboço de sorriso surgiu, devagar, quase que engatinhando... sentindo o gostinho de cada parte de sorrir. Eu, te olhando mais profundamente do que fixamente, saboreei cada segundo daquela hora. Teu sorriso e as covinhas mais lindas do mundo inteiro estavam ali, me lembrando do porquê tinhas te tornado mais interessante que os livros aquele dia. Me peguei sorrindo contigo, involuntariamente. E nossos sorrisos, nossas mãos e nossos lábios se encontraram. O coração ali já batia mais forte e, paradoxalmente, mais leve. Vai ver se apaixonar é isso... essa mistura louca de êxtase e paz que eu descobri enquanto te observava. Vai ver aquilo podia ser tanta coisa, ou não passar de mera casualidade. 

quarta-feira, 17 de junho de 2015

Felicidade?

Felicidade?
Disse o mais tolo: "Felicidade não existe".
O intelectual: "Não no sentido lato".
O empresário: "Desde que haja lucro".
O operário: "Sem emprego, nem pensar".
O cientista: "Ainda será descoberta".
O místico: "Está escrito nas estrelas".
O político: "Poder".
A igreja: "Sem tristeza, impossível. Amém".
O poeta riu de todos, e, por alguns minutos, foi feliz. (Fernando Anitelli)



Feliz aquele que sabe o valor de pequenas coisas. Pequenas mesmo, miúdas, banais, desimportantes. É isso: coisas desimportantes. Feliz aquele que guarda mais na memória do que no armário ou nas redes sociais. Aquele que entende o poder de alguns rápidos minutos diante dos outros tantos que formam um dia. Feliz aquele que ainda tem o brilho nos olhos e no sorriso e uma energia de dar gosto.
Felicidade é um trocinho difícil de falar né? Tem gente que acha que é passageira e outra gente que acha que é permanente. Vai saber. Pra mim, felicidade é uma coisa desimportante. Pequena, banal, quase invisível. Porque coisa importante é conta pra pagar, remédio pra tomar e trabalho pra entregar. Importantes são as notícias do jornal da noite, a crise financeira e as desigualdades. São todas as coisas que deixam a cabeça borbulhando e os músculos saltando do corpo. É o que a gente discute no jantar ou na fila do banco, são os assuntos de debates em sala de aula e de bate-boca na internet.
Felicidade, não. Como qualquer coisa desimportante, a gente nem percebe quando ela aparece. Pode durar dois segundos ou uma vida inteira; pode surpreender ou ser aguardada; às vezes tem nome e sobrenome, outras vezes não tem nem sinal de onde vem. Coisa desimportante assalta a gente das coisas importantes. Faz a gente rir sem motivo e ficar levinho, como uma folha de papel em branco pedindo pro vento escrever nela. Coisa desimportante surpreende, acende o coração e a alma pra coisa boa. As desimportâncias não tem vergonha, julgamento, preconceito ou regras. Só são desimportantes...

Mas a gente, desse mundo, só se importa mesmo com as coisas importantes. Porque elas gritam, elas acenam e chamam mais atenção que a felicidade, por exemplo. E enquanto a gente ta lá, batendo martelo sobre a importância de uma ideia, vão passando na nossa frente um tanto de coisinhas miúdas, bobas, banais, que quase não querem dizer nada. Quase. Porque as desimportâncias têm muito a dizer. A felicidade é tagarela também e fala por si só. Mas ultimamente ela fala sozinha, porque os ouvidos ficam muito ocupados com as importâncias da vida...

terça-feira, 9 de junho de 2015

Eu sou gay!

"Todos os animais são iguais, mas alguns são mais iguais que outros" (George Orwell)



Aos 12 anos, um dia acordei e, assim como escolhemos se usamos verde ou azul, escolhi ser gay. Decidi que a partir daquele dia só me apaixonaria por pessoas do mesmo sexo, porque aquilo devia ser muito lindo e divertido e com certeza me faria feliz. Então encontrei meu melhor amigo e reparei bem nele, que de repente parecia ser o cara mais interessante do mundo. Nos apaixonamos. Nos beijamos. E começamos a jornada das minhas – nossas – escolhas. Escolhi levá-lo em casa e apresentá-lo como amigo à minha família, bem, porque como eu diria “oi mãe, esse é meu namorado”?. Terminamos depois de um tempo e enquanto todos perguntavam por onde ele andava, eu dava desculpas como “viajou” ou “perdemos contato”. Tive outros namorados, é claro. E com eles vivi minha escolha mais intensamente.
Hoje minha escolha ainda repercute muito. Se ando na rua com um namorado não tocamos as mãos jamais, pra evitar a agressão em forma de olhares – assustados, risonhos ou pior... enojados – e a agressão física. E se eu apanho devo ficar calado, afinal... Quem mandou eu escolher isso? Quando vou a igreja preciso controlar o gestual e meu jeito de falar, pois para eles tenho que ser o homem da casa, da família. Quando falo de amor, devo medir as palavras, pra que não me julguem bicha ou viadinho, naquele tom irônico e intimidador. Nas rodas de amigos, se eu não comentar quão gostosas são as mulheres que passaram na rua, sou chamado de otário. E nem pensar em postar declarações públicas de amor aos meus parceiros.... onde já se viu isso?
Não existem beijos no cinema antes do filme, pra não assustar as crianças que sentam ao nosso lado. Nada de encontros românticos na praça ou jantares em restaurantes, pois corremos o risco de pedirem pra nos retirarmos. No dia a dia, na rua e no trabalho, finjo que não sou quem sou, pra que me considerem gente como eles. Ah, já ia esquecendo... também não podemos casar. Bem, juntamos as escovas de dentes e isso é o máximo que nos é de direito. Casar, não. Nem no civil, nem sob as bênçãos de Deus. Mas que pecado! Deus não nos aceita, é o que dizem as más línguas.
Somos o exemplo ruim, a má influência, aqueles que não devem se misturar. Bichos; aberrações; lixo; ratos; imundos; nojentos; pecadores.... Mártires. E se me perguntam agora por que, então, eu ESCOLHI, aos 12 anos, ser gay.... Eu vos digo: não nos avisaram que, nesse mundo, amar virou crime.

#TodaFormaDeAmorValeaPena