domingo, 16 de março de 2014

Minúcias


Gosto de saudade. Aperta o peito e fica entalado na garganta. Te faz suspirar, lembrar, viajar. Depois de muito esforço sai em forma de lágrimas e sorrisos descontrolados. É agridoce.
Desde que ele chegou a vida ta meio assim... Ele me pintou sorrisos e me ofereceu um lugar na escada. Eu subi e a garganta começou a engolir em seco. Estranho essa coisa de sentir alguém – você de repente se depara com um gosto na boca, um gosto sem nome e que só cabe em uma única língua. Gosto de saudade, pois é.
Gosto de algo que já devia estar ali e sabe-se lá porque não estava. Gosto de chuva passada. Gosto de reticências. Gosto de coração acelerado. Gosto de primeiro dia de aula. Gosto de corações que se conhecem mesmo à distância. Gosto de lágrima caída. Gosto de olhos que sorriem.
É, ele tem gosto disso tudo, mas resumido num gosto só. Ele é capaz de me fazer feliz por estar perto e por ficar bem. E nem precisa saber disso, porque talvez perdesse a graça. Ele sabe, no fundo sabe. Eles sempre sabem.

Suspiro. Lembro. Relembro. A garganta entalou, umas lágrimas se formaram na minha canoinha embaixo dos olhos – o que, por sinal, ele tem igual – e o gosto de saudade bateu forte na boca. Pois é, ele chegou. 

quarta-feira, 12 de março de 2014

Vício



"Se tu me cativas, nós teremos necessidade um do outro"


- Vem cá, me dá um abraço?
Foi só o que ela disse logo que ele chegou na sala. Ela não precisava de nenhuma resposta feita de palavras ali. Ambos sabiam que só era preciso um abraço. Um daqueles.
Ele olhou em volta, procurando não achar indícios de um impedimento determinado. Se aproximou de manso, ela sorriu daquele jeito tosco de quem pensa "como ele faz isso?" e esperou. Ali, nos muitos centímetros que separavam os dois corpos, havia mais coisa do que se pode pensar. Uma raposa e um príncipe. O principal: haviam cheiros. Dois aromas únicos e intensamente perceptíveis para os dois.

Ela amava o cheiro dele. A mistura doce, aparentemente inocente, anunciava um toque especial de pimenta, de cheiro de homem feito, cheiro de segredo - algo que ela jamais iria contar.
Ele amava o cheiro dela. Um aroma que por si só anunciava a força da mulher sem defesas, cheiro de mato, de fantasias, cheiro de gente estranha que chega pra ficar.

Chegando mais perto já dava pra ver ela inclinando a cabeça na posição certa que encaixaria na longa curva entre o pescoço e o ombro dele. O melhor lugar pra sentir o vício do aroma. Ele não se preocupava tanto, só sentia. Mulheres, como sempre, detalhistas demais.
Então ele chegou e ela se afundou naquela sensação única de abandonar o mundo inteiro por um abraço. Ele riu de leve e abafado com a boca encostada na nuca dela. Todas as forças estavam nos braços. Os olhos fechados, os corações conversando sobre qualquer coisa que não fizesse sentido. Ninguém precisa fazer sentido dentro de um abraço.
Os aromas se misturaram e ela não se incomodava com excessos. Queria mais, sempre que pudesse.
Se largaram como se os braços ainda puxassem um ao outro pra continuarem escondidos ali. Era bom. Era leve e simples. Os olhos dela diziam "obrigado" e os dele sequer precisavam retribuir, pois o sorriso bobo de sempre já o fizera.

4 segundos. Um abraço. Um mundo que desapareceu. Um esconderijo. Dois aromas. Um carinho. Sempre poucas palavras. Não há o que dizer quando se demonstra sentimento em atitude.
Na despedida, pouco tempo depois, um lamento mental: "quando vai ter outro de novo?". Assim que der, veio a resposta.

Enquanto isso, abstinência.

P.S.

"Ela é como uma carta de amor" - foi a ideia que me veio em mente quando me indagaram. 

Em seguida, lembrei do poema de Pessoa que diz "todas as cartas de amor são ridículas"... Ora, e por que não? Ser ridículo, afinal, é não seguir convenções. Assim ela é. 

Uma carta de amor escrita ao pé da árvore, sentindo a brisa... quando de repente, um pingo de uma chuva passada cai das folhas sobre o papel. Ele enrijece um pouco, mas a fricção com a caneta suporta.

Andando, ela é uma nuvem que forma desenhos... Ela flutua. Brinca com o chão como se não houvesse limites para caminhar com seus minúsculos pés em um solo imaginário. No fim das contas, o chão de verdade é lugar pra quem não tem a mente grande como a dela. Ela não tem jeito. Desajeito. 

A menina que parece uma carta, que tem muito de amor, que é tranquilidade e paz, entrou pela minha porta e irradiou a alegria aos meus dias. Contrastou com meu "mundo da lua", trouxe à tona a infância dos meus problemas, me fez sorrir uns porcento a mais. 

Mas eu sei que, como o vento, ela vai passar. Gente como ela não pode criar raiz num solo só, precisa desfilar o mundo saindo do lugar, criando novos lugares. A mim, resta guardar esses dias de sol na lembrança, quem sabe um fio dos cabelos cor de fogo baixo. Ou tentar segurar o cheiro de papel de carta num vidrinho colorido que eu abra de quando em vez pra sentir de novo toda essa mistura tranquila que ela me traz. 

Inspirado livremente na "carta de amor" dona do blog De boa com Débora

quinta-feira, 6 de março de 2014

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Ele tem os olhos de ressaca. Olhos de criança que acabou de acordar e ainda não sentiu cheiro de café. Ele é meio criança também, no jeito e na voz. No toque é um homem com sede de conquista; nas palavras é um velho e apaixonado escritor que as domina como se fossem amigos há muito tempo, trocam figurinhas e afinidades e juntos constroem obras primas, que a gente convencionou chamar de textos.

Ela não saberia explicar, mesmo que alguém pedisse. Foi rápido e sequer fazia algum sentido. Quando ele apareceu, ela ainda não estava pronta; ele veio com lápis e papel na mão e com o olhar mais seguro de quem sabe o que faz. De fato ele sabia. No primeiro toque ela se deixou guiar, mas apenas observou de longe o que aquele garoto magro fazia de tão interessante pra que ela não conseguisse desgrudar o olhar. Poucas palavras, uma distância mínima capaz de transmitir o calor um do outro.

Dali em diante só foi preciso um pouco de coca e um chocolate, detalhes pra outro conto qualquer. As madrugadas já não eram tão frias, solitárias ou assustadoras. Eles estavam sempre acolhidos pelo intermédio entre lua e sol e recheavam esse espaço em branco com conversas sobre o nada, risadas e algumas prosas poéticas. Ela vinha com o café e ele completava com o leite.

Afinidade é um negócio estranho de descrever em palavras. Talvez baste dizer que eles riam o mesmo riso e choravam as mesmas lágrimas, pois eram crianças no tempo errado. Em pouco tempo, ela se encantara com o jeito único que ele tinha de sorrir com os olhos e com aquela mania chata de ficar repetindo a mesma coisa milhões de vezes só pra encher o saco... “egua não, mano... não mano, egua. Égua não, mano”. Ela já sabia que ele não podia comer doce e amava empadão e pão de queijo. Ah, sem esquecer a coca zero. Nossa, ele era doido por essa maldita coca zero. Ela também se encantava todo dia com a risada meio forçada dele ao telefone, e com o talento pra ser garoto propaganda da tekpix. Ela gostava de como ele a fazia rir e do quanto ela se sentia leve falando com ele. Ele era o “meu bem”.

Ele, ao mesmo tempo, deve saber que ela é uma idiota na maioria das vezes, por não ter coragem de dizer o quanto ele é importante e quão admirável ela o considera. Ele também deve desconfiar de todas as vezes que ela morre de ciúmes porque ele deu mais atenção a alguém do que a ela, e provavelmente sabe da vontade inesgotável que ela tem de se esconder no abraço dele quando se encontram. E ele sabe, com certeza, o quanto ela o acha um dos caras mais incríveis que ela já conheceu, embora panaca quase sempre.
No fundo, ele sabe com todo o coração, que ela o ama. Mas não pode dizer isso, pois ela jamais admitiria. Nem mesmo após passar a madrugada tentando escrever as melhores palavras e perdendo-as por todo canto do quarto... nem assim ela admitiria.

Pra ela, aqueles olhos de ressaca que riem sozinhos, aquelas mãos de um homem descobridor e aquele jeito de criança levada só fazem sentido se forem mistério. Segredo de dedinho, ninguém pode saber. De manhã, todos os dias, só na mistura do café com leite, algum mistério é revelado. Por hoje, isso basta.

Texto dedicado ao meu bem, pela comemoração de mais uma década de santiaguisses.