Inspirado no poema "Canção do amor imprevisto" de Mário Quintana
A gente não escolhe um poema. Ele escolhe a gente.
Procuramos atentamente alguma coisa que nunca está ali. Viramos página por
página em busca do poema que vamos escolher. Suspiramos cansados. Decepcionados.
Às vezes paramos em um e temos certeza que é aquele, mas o resto do corpo da
gente não confirma o que a mente diz. Porque o poema esperado – ou (des)esperado
– é aquele que num virar apressado de páginas, ou num olhar despercebido, por
algum motivo nos faz parar a procura. É o último poema, ou quem sabe o
primeiro. É aquele que não te deixa mais virar a página, desviar o olhar, a
atenção. O poema que te escolhe e te rouba pra ele.
Tu és pra mim como um poema. Depois de tantas procuras
infindáveis e inúteis, tu me escolheste. “Com tua boca fresca de madrugada, com
teu passo leve, com esses teus cabelos”. Fizeste-me parar de virar os dias, como
páginas. E já não tive mais o olhar vazio, faminto. Meus olhos cruzaram os teus
e souberam o que queriam. E quiseram. Querem.
Te li nas entrelinhas dos gestos, como quem tem sempre algo
a descobrir. Passei os lábios na tua pele, decifrando teus versos a cada sílaba
poética. Não procurei rimas ou métrica. Tua musicalidade me basta. Devorei sem
que soubesses teus significados, ao olhar fixamente teus olhos distantes.
Saboreei tuas expressões. Teu sono. Teu desejo. Tua alegria. Tua dor. E desabei
inteira no teu sorriso. Ele me escolheu.
Mas se não tivesse escolhido, eu burlaria a regra dos poemas
e te escolheria inteiro do mesmo jeito.
