quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

Só mais 5 minutinhos.



Tu surgiste aos meus olhos como um cometa atravessando o céu em uma olhadela distraída num dia comum. Te reparei quase sem perceber. Te reparei em meio a tantas outras estrelas espalhadas no tumulto da noite. E de reparo em reparo, eu te vi. Teu brilho, tua aura, tua respiração tranquila ainda que em meio ao caos, tua energia, teus olhos. Aqueles dois pequenos e precisos pontos negros no meio do teu rosto iluminado. Tudo em ti me lembra o universo. Talvez porque pareças uma galáxia inteira presa a um corpo que não sustenta tanta intensidade. Talvez porque pra ti o universo faça tanto sentido quanto para os andantes comuns o dia e a noite sejam tão óbvios. Talvez porque a primeira diversão em comum tenha sido procurar a lua no céu. Naquela noite ela não estava lá, no lado que disseste, nem no lado que eu disse, nem por trás da árvore, nem no caminho da minha casa. Ela estava em ti. Nos teus dois pequenos e precisos pontos negros. E talvez por isso eu tenha te visto. E talvez o universo tenha esperado por tudo isso e decidiu nos colocar naquela noite como dois marionetes da vida que deviam se ver. Nos vimos.
Te reparei tantas outras vezes em tantos pequenos detalhes que só quem também é um pouco universo poderia compreender. Fiz parte do que me deste de ti como faço quando tomo o sagrado banho de chuva. Contigo foi sagrado também. Foi saboroso. Degustei os segundos com os cinco sentidos aguçados; senti as primeiras gotas de ti a respingar por perto e fui parte por parte adentrando... primeiro a ponta dos pés e assim por diante. Em um tempo tão relativo que nem a física quântica explicaria, eu saltitei no teu temporal. Deixei que invadisses as minhas galáxias com tuas gotas grandes e fortes. Quando dei por mim, já estava banhada, encharcada, um tanto curiosamente espantada e cheia de pedaços de ti no meu universo.

Choveste em mim algumas vezes mais. E em todas elas, quando o fim se aproximava, sentia o sabor agridoce da madrugada que se esvai e traz o dia novo. O sabor de despedir-se da fiel companheira dos amantes, escritores e loucos, sem saber qual deles sou. O sabor de não saber. O sabor do depois. E então o derradeiro momento sempre se adia, porque gostas de alongar o nascer do sol, o levantar da cama, o toque do despertador. Gostas do intervalo em que sol e lua beijam a terra e não se decidem em quem vai e quem fica. E eu rio. Rio de ti. Rio do teu mar de histórias fantásticas-galáticas-tuas. Mas quando, enfim, te decides, esboço a expressão da primeira vez em que te reparei. Voltas a ser cometa. Volto a olhar as tantas estrelas. Te vejo atravessando o céu já meio amanhecido e só sinto os últimos toques da tua mão que não solta a minha. Nunca deu tempo a mais, nunca foi tempo a menos. É sempre muito universal. Energético. Lunático. Com toda poesia que há na lua. E fica sempre a sensação de desejo que não pode ser cumprido. Fica? Só mais 5 minutinhos. Ou o tempo que teu universo deixar.

quarta-feira, 1 de junho de 2016

Com amor...

"Não, não falo de coração...
coração é piegas, careta, coração ta fora de moda [...]
Ponha num daqueles potinhos,
com água e açúcar
em que o beija-flor vem beber..." 
(Potinhos - A banda mais bonita da cidade)


Há, no mundo, muitos colecionadores. Há pessoas que colecionam palhetas, chaves, chaveiros, moedas antigas, canetas, miniaturas, souvenirs, relógios, pulseiras e até guarda-chuvas. Há quem colecione fotografias, músicas, instantes... E por que não os colecionadores de segredos? De toques, de rancores, de sabores. Há inúmeras coisas colecionáveis. E no meio do emaranhado de colecionisses, eu me enfio de cara e peito abertos. Sou colecionadora de amores. Sim, amores.
É certo que dizem por aí que só se ama uma vez na vida. Também já ouvi muitas definições pro amor verdadeiro. Ah, tagarelices. Amor é amor e pronto, não se fala mais nisso. Na verdade, falamos sim. Porque eu os coleciono. Amores de todos os tamanhos, formatos e intensidades. Amores meus e de quem passa por mim. Amores de filmes, de novelas, do teatro e das obras literárias. Amores musicais. Amores virtuais. Ora, sejamos francos, quem nunca viveu um amor que pensou ser pra vida inteira? E ele foi, na vida em que durou. Como diria Vinícius, não foi imortal, mas foi infinito.
E os amores de ônibus? Ou de esquina... aqueles em que você troca dois ou três olhares com o outro – quando não um único – e a energia é tanta que você é capaz de ter certeza que se amaram loucamente naqueles 3 minutos. Há também os amores platônicos, que vivem durante a adolescência como se infindáveis, ainda que nunca aconteçam para além da nossa mente. Os amores de uma noite, que no dia seguinte viram só mais um dígito na lista de amores de uma noite e talvez, nem se tornem memória. Os amores de infância – quando tudo é mágico e impossível e fantasioso demais – os mais doces que vivemos.
Os grandes amores. Ah, os grandes amores. Aqueles que te fazem virar o mundo de ponta cabeça porque pisar no chão já não te supre mais. São os que rendem as histórias mais longas, ainda que nem sempre tragam registros. Os risos e lágrimas mais profundos. Os que você conta aos amigos como se fosse um romance de algum autor desconhecido. São meus preferidos. Mas, impossível não mencionar os amores à primeira vista. Que me perdoem os incrédulos, até que me provem o contrário, bem... eles existem. São intensos, instantâneos, inconfundíveis. Costumam se misturar com os grandes amores, os amores de esquina e os platônicos também.
Os mais rigorosos rirão da minha cara e dirão que nada disso é amor mesmo. Dirão que não sei fazer diferença de sentimentos e talvez nem saiba o que é o amor. Bem, eu sinto. Sinto muito. Com todos os poros e partes do corpo. Sinto amor, respiro amor, transpiro amor... amo como se não houvesse amanhã. Amo por 5 segundos ou 50 anos. Amo. E coleciono o amor, porque.... o que de melhor há no mundo pra se guardar em potinhos e contar devagarinho em forma de histórias? O que de mais poético, doce, leve e lindo há pra se espalhar por aí quando se tem de sobra?
A palavrinha que, com quatro letras causa tanto estrago, pode ter ou não definição, categorias, tipos ou tamanhos. Mas é tão boa que devia ser lei. Sejamos amor, colecionadores ou não.


segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

B de Bis (2)



As primeiras gotas de mais uma chuva começam a pintar na janela do ônibus um ar de fim de tarde. De fim. No lado oposto eles conversam e riem e comem qualquer coisa pra se distrair nas últimas horas. Ela observa. Sorri internamente. Lembra dos últimos dois dias já com uma saudade gostosa.
10 pessoas numa casa e um mesmo objetivo... Luz, câmera e, principalmente, ação. "Dar vida a um ser fictício", ela ouvira uma vez sobre o papel de um ator, mas sempre se questionou sobre como dar vida a alguém se você estiver sem vida. E estar sem vida pode querer dizer muitas coisas. Mas naqueles dias nada disso precisou fazer sentido. Foi simples e, ainda que imperfeito, uma coisa fazia todos continuarem... paixão!
Entre risos, discussões, repetições, um nascimento. Vários (re)nascimentos. Ali, entre eles e a janela, a felicidade tomou conta como as gotas da chuva que estampavam a tarde. Leve. Em paz. O fim é relativo quando se vê muitos caminhos em frente. E no fim das contas, dar vida a alguém já não parecia tão difícil, pois naqueles dois dias eles deram vida a ela.
"Se sintam bem" - que isso vá pra vida.