segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Coffe Break

Como um café. Amargo ou doce, sempre indispensável. Assim ele era, assim ela o considerava. Alguns dias uma dose a mais, outros uma dose a menos. De vez em quando uma overdose não faria mal a ninguém. Já teve uma overdose de café? Pois ela já, ela sabe bem como é isso e a ressaca que gera depois. Não é bem a ressaca dos olhos caídos e peso no corpo. É uma ressaca que traz um resto de sorriso esboçado no canto da boca e uma gargalhada movida por lembranças. Ressaca que vem com bom humor e olhos brilhantes, disposição e muitas mensagens por ler. Tudo ao contrário, sim. Quem disse que eles seguem um padrão?

Naquele dia ela acordara com o som do “bom dia” dele pelo celular. A “campainha” anunciava que o café já estava ali, servido, pronto pra outra. Ela, com o rosto ainda borrado da noite anterior, fitava atentamente as mensagens da madrugada tentando entender o porquê, o como, a razão de tanto gostar, de tanto querer bem. No meio da leitura ela engoliu em seco e sentiu o ardume das inúmeras doses de vodka ainda remanescentes no organismo. Ela queria o café, amargo. Precisava dele. Mas a culpa não permitiu que aqueles dedos minúsculos respondessem algum sinal de afeto. Somente o silêncio.
Do outro lado da cidade, ele esperava ansioso por qualquer palavra, mesmo um xingamento ou um pé na bunda. Esperava que ela se desse conta do quão certo ele seria pra ela, do quão necessária ela era a ele. Respirou fundo; um gole de suco; uma mordida no pão. Ela gosta de chocolate, ele lembrou. Quem sabe uma visita? Não. A liberdade é uma das normas estabelecidas, apesar de já terem quebrado todas as normas. Mas naquele dia, foi a melhor escolha.
Banho. Como ela não tinha o café – banho. Água fria e uns minutos de reflexão. Não havia arrependimento naquele olhar dissimulado, sedutor. Havia culpa, até demais, mas o instinto sempre se sobressaía. Corpo. Fogo. Desejo. Telefone. Meu Deus, o telefone. Tocava... Ele não resistiu.
O bom dia agora era mais do que palavras escritas na caixa de entrada, ela sentia sua respiração e a euforia no tom da voz. Ele sentia saudades e era recíproco, mas como explicar o gosto do álcool na garganta ou o vestido rasgado que ele sempre pedira pra ela usar quando saíssem? Ela não era a certa. Ele sabia. E ele era somente o café. Sempre o café. O indispensável café. Naquele dia, apesar de tudo, ela cedeu – só uma dose, no fim da tarde, nada mais. 

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Ocaso ao acaso



Foi e não foi por acaso. Ele chegou, ela estava disposta. Como é mesmo aquela estória? "Os opostos se distraem, os dispostos se atraem". Pois é, foi quase assim. Ele discreto a passos curtos e ela exagerada, ocupando todos os espaços. Ele tinha uma mochila na costa e um milhão de segredos. Ela, um sorriso no rosto e sonhos, grandes sonhos. O que tinham em comum? Um tesouro e o desejo de alguma vitória, afinal uma vitória é necessária depois de tantas decepções. E ela, que estava disposta. Ele eu jamais vou saber. Mas ela... depois de dias a fio trocando cumplicidade e semelhanças surpreendentes, acordava esperando um "bom dia" que fosse; prendia os cabelos imaginando o que ele diria; escolhia as roupas tentando encontrar o ponto certo do agrado dele. Foi rápido demais. Intenso. 
Ele não era perfeito, não chegou de cavalo branco e brasão no peito. Mas era ele, sabe? Há algumas semanas era só ele. Descobrir um amor na madrugada não era o sonho de ninguém, mas era agora o tesouro deles. Opa, quase esqueço o tesouro. 
Ambos sabiam como ninguém, domar as palavras. Imagina só, dois domadores de palavras. É claro que ele tinha mais habilidade, domava como um maestro que rege a orquestra mais coesa e encantadora. Ela perdera as palavras num caminho que não sabia direito qual era e pra isso ele estava ali, disposto também, a guiá-la pelo caminho de volta. Ela tinha medo enquanto ele era recheado de grandes coragens. Opostos dispostos. Se atraíram.
Mas o destino é traiçoeiro e não prevê finais felizes pra amores imprevistos, inconsequentes. Talvez se realizasse, talvez não. Quem sabe os dois sentissem o mesmo e só faltasse a chance de dizer. Como saber? Só se sabe que se encontraram de vez em quando por aí, em meio algumas tempestades. Mas como exímios domadores de palavras, a vida para eles não se resumia a alguns esbarros de meio de caminho, a vida fazia mais sentido quando frases e versos se sobrepunham aos olhares, quando o sentimento passeava pelas entrelinhas do texto.
Ouvi dizer nas minhas andanças, que um dia o pôr-do-sol se fez diferente, e bem ali pertinho dele estavam um casal com papel e caneta, trabalhando duramente para transformar em arte o que apenas parecia mais um dia. Desse dia nasceram um poema e uma crônica, fruto de um amor de improviso num fim de tarde qualquer, num fim de sol. Foi e não foi por acaso. 

domingo, 16 de fevereiro de 2014

Desacato



Hoje acordei pedindo pra ser poesia. Abri as janelas e numa baforada de vento às 10 da manhã, eu quis-porque-quis ser poesia. Vai me entender. E então pra todos os lados que eu olhava, suplicava. Pode parecer bobagem, mas queria ser doce e forte como as linhas de uma poesia. Queria poder rimar aqui e ali, e ser alvo de tantos sorrisos e olhares encantadores dos leitores. Queria dizer o sentimento com  habilidade. Queria aprender essa magia de ser delicada e fina sem perder o domínio da palavra.
Mas eu nasci prosa, em todos os sentidos possíveis. Prosa em gênero, número e grau. Prosa de ser e de escrever. E não tenho jeito. Não tomo jeito. Não sei rimar A com B, nem manter as coisas em seus níveis. Não sei nada da elegância e odeio seguir as regras do jogo. O que fazer comigo agora? Não vou ser só um pedaço de texto rabiscado no canto de uma folha de caderno qualquer. Não posso ser só isso... Alguém me finaliza, por favor? Porque eu já perdi a linha, já pulei o parágrafo, já não sei como me terminar, se é que isso é possível. Preciso de mais papel e caneta, pra não ficar restrita às mensagens de texto pela manhã, aos emails respondendo cobranças, aos pedaços de prosa jogados por aí. Eu quero ser mais, e preciso que alguém me escreva. Ninguém disponível? Eu já imaginava...
Então ficamos assim, deixa que eu me escrevo mesmo. Mas depois não reclamem, das linhas tortas, da deselegância, do vocabulário que esqueceu de ser politicamente correto. Nada aqui é correto, às vezes nem a ortografia... Portanto, me deixem quieta me reescrevendo. Isso mesmo,  vou ter de começar de novo, reaprender a ser prosa, porque na tentativa de ser poesia, eu perdi o foco ainda mais.

Publicado em: 18 fev 2012

A rainha e o plebeu

Ele escrevia contos de fada sobre ela. Fazia dos cachos castanhos o travesseiro de suas palavras. De lá, elas brotavam sorrateiras para cada parte do violoncelo que, para ele, o corpo dela representava. Nas sobrancelhas levemente arqueadas, as palavras faziam-na pôr-do-sol, início e fim ao mesmo tempo, abrindo espaço para o eclipse que aconteceria mais adiante. 
Nas pupilas dilatadas, ela era o dragão fêmea que inescrupuloso cuspia fogo e fumaça no quarto vazio de tudo que não fosse os dois. Os lábios cobertos do mesmo vermelho da noite anterior eram, na fantasia das palavras dele, a perdição de um reino distante com guerreiros barrando a livre entrada para a língua doce daquela mulher.
Pouco a pouco, como um rio, as palavras desaguavam pela pele morena de sol, até chegarem ás cascatas formadas por seus seios descobertos. Ali ela seria fada, sem varinha, com condão natural surgindo cifrado pelo violoncelo. Quando enfim o umbigo. Redemoinho. A armadilha de uma bruxa para fazê-lo perder-se no caminho. Embriagava-o de todos os doces perfumes dantes derramados ali. Até que, tonto, ele alcance rastejante o Monte de Vênus. O lendário. O fruto de outro conto, onde a fantasia ultrapassa o limite entre bruxas e fadas, onde ela é rainha e ele plebeu- destinado a escalar cuidadosamente o monte a mando de sua ama. 
Daquele ponto em diante o rio perde seu rumo, o conto de fadas torna-se labirinto estendido pelas longas e grossas pernas da musa daquela história. E o poeta então acorda, com mais um texto incompleto, na mesma posição em que começara a ladainha. Sentado na sacada a admirar sua princesa que dormia a sono leve em seu castelo, do outro lado do reino, do outro lado da rua. 

sábado, 15 de fevereiro de 2014

Tudo novo. De novo.

Recomeçar. Palavrinha difícil essa. E nem tem a ver com escrita ou pronúncia... difícil de fazer. Recomeçar é trabalhar com o diferente e o diferente é assustador. Recomeçar é usar o passado a nosso favor; trilhar um novo caminho mesmo quando se está no meio de um outro; apagar e fazer de novo; riscar por cima; enxugar as lágrimas e sorrir de novo. Recomeçar é remexer no baú e colocar cada coisa no seu lugar.

É claro que eu tive medo. Quase desisti, mas algo me motivou a isso. Escrever sempre foi libertador, sempre foi as minhas asas. Escrevendo enlouqueci. Escrevendo sonhei. Pendi como anjo em busca da lua no céu e no mar. Há quem diga que não passei de palavras jogadas no papel. Há quem acredite que existi. Sim, existo. Como Ismália que precisa descobrir mundos através do luar, eu existo. E voltei, recomeçando, me refazendo, juntando os retalhos das histórias que conheci pelos mundos que atravessei. Voltei pra recriar, ser Ismália novamente.

Ser um pouco poeta e um pouco louca, porque disso eu não quero ser livre.