Como um café. Amargo ou doce, sempre indispensável. Assim
ele era, assim ela o considerava. Alguns dias uma dose a mais, outros uma dose
a menos. De vez em quando uma overdose não faria mal a ninguém. Já teve uma
overdose de café? Pois ela já, ela sabe bem como é isso e a ressaca que gera
depois. Não é bem a ressaca dos olhos caídos e peso no corpo. É uma ressaca que
traz um resto de sorriso esboçado no canto da boca e uma gargalhada movida por
lembranças. Ressaca que vem com bom humor e olhos brilhantes, disposição e
muitas mensagens por ler. Tudo ao contrário, sim. Quem disse que eles seguem um
padrão?
Naquele dia ela acordara com o som do “bom dia” dele pelo
celular. A “campainha” anunciava que o café já estava ali, servido, pronto pra
outra. Ela, com o rosto ainda borrado da noite anterior, fitava atentamente as
mensagens da madrugada tentando entender o porquê, o como, a razão de tanto
gostar, de tanto querer bem. No meio da leitura ela engoliu em seco e sentiu o
ardume das inúmeras doses de vodka ainda remanescentes no organismo. Ela queria
o café, amargo. Precisava dele. Mas a culpa não permitiu que aqueles dedos
minúsculos respondessem algum sinal de afeto. Somente o silêncio.
Do outro lado da cidade, ele esperava ansioso por qualquer
palavra, mesmo um xingamento ou um pé na bunda. Esperava que ela se desse conta
do quão certo ele seria pra ela, do quão necessária ela era a ele. Respirou
fundo; um gole de suco; uma mordida no pão. Ela gosta de chocolate, ele lembrou.
Quem sabe uma visita? Não. A liberdade é uma das normas estabelecidas, apesar
de já terem quebrado todas as normas. Mas naquele dia, foi a melhor escolha.
Banho. Como ela não tinha o café – banho. Água fria e uns minutos
de reflexão. Não havia arrependimento naquele olhar dissimulado, sedutor. Havia
culpa, até demais, mas o instinto sempre se sobressaía. Corpo. Fogo. Desejo.
Telefone. Meu Deus, o telefone. Tocava... Ele não resistiu.
O bom dia agora era mais do que palavras escritas na caixa
de entrada, ela sentia sua respiração e a euforia no tom da voz. Ele sentia
saudades e era recíproco, mas como explicar o gosto do álcool na garganta ou o
vestido rasgado que ele sempre pedira pra ela usar quando saíssem? Ela não era
a certa. Ele sabia. E ele era somente o café. Sempre o café. O indispensável
café. Naquele dia, apesar de tudo, ela cedeu – só uma dose, no fim da tarde,
nada mais.



