domingo, 18 de maio de 2014

Sobre as gotas de esperança



Acordei um dia e o mundo estava às avessas. O teto era chão, os lustres eram postes, as pessoas se olhavam de cabeça pra baixo. Além disso, os valores também se inverteram... era gente pegando coisa de outra gente; jovem sentado e idoso em pé; e as ruas eram de saqueadores, quem quisesse andar por ali tinha que ter algo de valor pra trocar por alguns passos de caminhada. A gente andava sobre o azul do céu e ficava escondido na sombra do cinza do chão. Seria poético se não fosse trágico. Mas como o ser humano é bem flexível e adaptável, a gente se acostumou. Eu confesso que ainda fiquei com aquela sensação estranha, a pulga atrás da minha orelha dizendo que era tudo um pesadelo e que uma hora ou outra alguém mostraria uma brecha do nosso mundo de verdade, da nossa civilização. Falando nisso, lembrei de um poema que diz mais ou menos assim "civilizado é quem aprendeu a cantar 'parabéns pra você' e sabe o que é contrato: você isso e eu aquilo com assinatura embaixo". Vai ver fizemos um contrato com algum concretista e estávamos brincando de experimentar esse jeito estranho de levar uma vida fake. 
Mas aí, quando já fugia de mim a amiga esperança, eis que me surge uma chama, aparentemente tão fraquinha, mas que despertou todo brilho de outrora nos meus olhos... Tudo se resumiu a uma manhã, algumas crianças, um dedo levantado e um diálogo. Apresento-lhes:

Os três fulanos brincavam com aqueles jogos de montar que lembram os legos do nosso tempo, quando a professora os chamou pra arrumar as mochilas e sentar nas cadeiras. O jogo ficou abandonado do jeito que tava - desajeitado - no meio da mesa. Uns minutos depois, a voz da professora sobressaiu...

Prof - Quem era que tava jogando aquilo ali?
Bia - Era o Samuel e o Pedro, tia. 

Os dois se olharam com aquela cara de "droga, ela descobriu!" até ouvirem o comando pra levantarem e irem ajudar a Bia a arrumar tudo. Duas trombas se formaram, mas as perninhas caminharam até lá. Enquanto isso, um dedinho levantado no meio dos sorrisos maldosinhos de quem gosta do azar alheio. A professora passou a palavra e recebeu a surpresa.

Matheus - Eu também, tia!

Ninguém pediu, ninguém mandou, ninguém sequer olhou pra ele na hora de encontrar os culpados do crime do lego bagunçado. Ele só levantou a mão. Ele só sabia que ele também tava lá. Me remeto agora a outro poema que dizia que "Herois são pessoas que fizeram o que era necessário fazer, enfrentando as consequências". Pra ele era necessário, era o certo e ele fez. Aos 6 anos de idade. Ele também já sabe cantar "parabéns pra você", mas nunca ouviu falar de contrato. Ainda assim, de todos que eu já conheci há 20 anos, aquele serzinho de 6, foi o mais civilizado. Quem sabe ele não seja parte do caminho pra gente sair do avesso?


Obs: O fato foi real, mas os nomes das crianças são fictícios em respeito a cada uma. Imagem meramente ilustrativa.

segunda-feira, 12 de maio de 2014

Pães

Quando eu tinha em torno de 7 anos ela me surpreendeu com um bouquê de rosas. Eu estava radiante e ela emocionada, entrei em casa com lágrimas nos olhos porque além da felicidade de ter realizado um sonho,ela teve orgulho de mim. Era minha primeira apresentação de dança, minha primeira superaçao.
Quando eu tinha 2 anos de idade ela me escolheu. Desde bem antes ela tinha escolhido, claro, mas nesse tempo ela escolheu de novo, confirmou perante tudo e todos que nao importava o que houvesse, seriamos nós duas, para o que desse e o que viesse. Fomos. Somos.
Aos meus 17 choramos juntas. Ela me olhou com os olhos brilhando de quem acima de tudo acreditava em mim, enquanto eu chorava em desespero achando que a reta final tinha chegado e eu tinha derrotado... como sempre, ela estava certa. Ela sorriu gritando entre os dentes a felicidade obvia do dever cumprido, enquanto isso me abraçava e dizia "voce passou, filhaa!!!". Era Letras. E eu tive a graça de poder dizer sempre pra todo mundo que ela me apoiava.
Nos meus 20 anos, perco a conta de vezes que ouço como somos parecidas.. de jeito, de aparência, de talento. É, eu confesso que pra ela sempre costumo dizer que só puxei os defeitos - às vezes é difícil admitir que nem todos os defeitos que se tem derivam de alguem - mas a verdade é que de tudo que eu mais admiro nela, o que mais me orgulha ter resquicios de herança é a determinação.
Ela nao usa capa nem armadura, mas é mais forte e poderosa que qualquer mulher maravilha.
Ela me aguentou por 20 anos e fez o que pôde - e o que nao pode tbm - pra deixar uma sementinha boa dentro de mim. Ela escuta meus desaforos e suporta minha distância, ela carrega o peso das minhas lágrimas e ainda assim consegue ser minha "fã". Ela me ensinou as melhores e piores coisas da vida. Me protegeu, e me fez saber lidar com o mundo. Foi meu papai noel, e a fada do dente. E ainda é criança junto comigo no dia 12 de outubro.
Ela me ensinou que todo mundo é igual e me fez ver, desde pequena, que amor é sempre amor, independente de cor, raça, credo, condição social ou sexual; ela me mostrou que familia nao tem tamanho certo ou quantidade estipulada; me provou que pra ser pai precisa bem mais do que ter um gogó ou ser o machão; ela me ensinou que nao se deve dar o peixe, mas ensinar a pescar; com ela eu aprendi a pensar. Eu li. Escrevi. Questionei. E chorei ao escrever essa carta/depoimento/texto ou sabe-se la.
 Ela tem o coração do tamanho do amor, e de fato, se tem uma coisa que elas estão sempre e super certas é que a gente so vai entender que amor é esse quando estivermos no lugar delas.

sábado, 10 de maio de 2014

Sobre Oz.



"Me tira da cartola e devolve minhas asas!!"

Acordei pela décima vez no mesmo ano, de um afogamento. Ele me fazia respirar só de segurar minha mão. Ao lado, uma cartola e um instrumento musical... e um olhar brilhante como um cristal. Era meio humano e meio mágico e com uma única mão me socorreu do mar. Respirei profundamente e olhei ao nosso redor... flores, na outra mão as minhas asas. "Como ele fez isso?", eu me questionei, mas quando ele esboçou o sorriso doce e admirado acompanhado dos olhos mais brilhantes que eu já vira, entendi. Sorriu e saiu, me deixou a sós com tudo aquilo que compunha a figura dele. Na cartola, encontrei uma carta com algumas descrições... Ismália. 
Ele me tirou da cartola e devolveu as minhas asas. Me (re)compôs. Me deixou ser livre sendo dele. E eu aceitei. Deixei uma carta em resposta no mesmo lugar antes de alçar voo novamente:

"Oz, não me deixa afogar de novo nas minhas gotas de desilusão. Traz teu brilho quando necessário pra me resgatar dos escombros da solidão. Me deixa ser a parte que proteges e eu então serei a parte que te falta. Obrigada. Da sua, Ismália". 


Para ele, meu mágico de Oz, que não tem um reino fixo e desviou a estrada de tijolos amarelos. Pelos dias mágicos que me proporciona e por ser meu protetor nas linhas incertas de Ismália. 

quarta-feira, 7 de maio de 2014

Alone.



Ele tem olhos de quem tem muito a dizer, mas perdeu as palavras porque as jogou no caminho de casa tal qual migalhas de pão, com medo de se perder. Meio João, meio Maria. Ele parece solidão, mas me lembra euforia... tem cheirinho de fim de festa, de resto de bolo, de balão estourando, de roupa suja de coca, de brigadeiro espalhado, de marmita que a gente leva pra casa pra comer com café no dia seguinte. E como ele combina com café!
Ele tem um jeito bonito de ver as pessoas. Ele diz que eu tenho gosto de felicidade. E eu digo que ele sou eu, e eu sou ele. Hoje ele me agradeceu, sabe-se lá por que e me arrancou uma lágrima que caiu gargalhando - poucas pessoas conseguiram isso. Mas a gente não tem que agradecer por cativar as pessoas. A gente é pros outros um reflexo do que são pra gente. Ele me ensinou a ser ele, eu o ensinei a ser eu. A gente aprendeu a caminhar junto, tornamos nossas diferenças oportunidades de invadir o novo... a gente se deixou amar. Ele, do jeitinho quieto de quem não tem muitos amigos, consegue trocar uma vida comigo pelo olhar. Eu, do meu jeito tosco e dramático e exagerado de quem precisa sempre de um colo, encontrei nele o meu abrigo, o meu afago. Ele é meu protegido e minha segurança. É a paz da minha confusão interna. Sem querer ser pretensiosa, mas pra falar dele me arrisco a embaralhar as palavras de Lispector e dizer "Ele faz de uma borboleta uma epopeia. E é inortodoxo". 
Ele sou eu, eu sou ele.