Acordei um dia e o mundo estava às avessas. O teto era chão, os lustres eram postes, as pessoas se olhavam de cabeça pra baixo. Além disso, os valores também se inverteram... era gente pegando coisa de outra gente; jovem sentado e idoso em pé; e as ruas eram de saqueadores, quem quisesse andar por ali tinha que ter algo de valor pra trocar por alguns passos de caminhada. A gente andava sobre o azul do céu e ficava escondido na sombra do cinza do chão. Seria poético se não fosse trágico. Mas como o ser humano é bem flexível e adaptável, a gente se acostumou. Eu confesso que ainda fiquei com aquela sensação estranha, a pulga atrás da minha orelha dizendo que era tudo um pesadelo e que uma hora ou outra alguém mostraria uma brecha do nosso mundo de verdade, da nossa civilização. Falando nisso, lembrei de um poema que diz mais ou menos assim "civilizado é quem aprendeu a cantar 'parabéns pra você' e sabe o que é contrato: você isso e eu aquilo com assinatura embaixo". Vai ver fizemos um contrato com algum concretista e estávamos brincando de experimentar esse jeito estranho de levar uma vida fake.
Mas aí, quando já fugia de mim a amiga esperança, eis que me surge uma chama, aparentemente tão fraquinha, mas que despertou todo brilho de outrora nos meus olhos... Tudo se resumiu a uma manhã, algumas crianças, um dedo levantado e um diálogo. Apresento-lhes:
Os três fulanos brincavam com aqueles jogos de montar que lembram os legos do nosso tempo, quando a professora os chamou pra arrumar as mochilas e sentar nas cadeiras. O jogo ficou abandonado do jeito que tava - desajeitado - no meio da mesa. Uns minutos depois, a voz da professora sobressaiu...
Prof - Quem era que tava jogando aquilo ali?
Bia - Era o Samuel e o Pedro, tia.
Os dois se olharam com aquela cara de "droga, ela descobriu!" até ouvirem o comando pra levantarem e irem ajudar a Bia a arrumar tudo. Duas trombas se formaram, mas as perninhas caminharam até lá. Enquanto isso, um dedinho levantado no meio dos sorrisos maldosinhos de quem gosta do azar alheio. A professora passou a palavra e recebeu a surpresa.
Matheus - Eu também, tia!
Ninguém pediu, ninguém mandou, ninguém sequer olhou pra ele na hora de encontrar os culpados do crime do lego bagunçado. Ele só levantou a mão. Ele só sabia que ele também tava lá. Me remeto agora a outro poema que dizia que "Herois são pessoas que fizeram o que era necessário fazer, enfrentando as consequências". Pra ele era necessário, era o certo e ele fez. Aos 6 anos de idade. Ele também já sabe cantar "parabéns pra você", mas nunca ouviu falar de contrato. Ainda assim, de todos que eu já conheci há 20 anos, aquele serzinho de 6, foi o mais civilizado. Quem sabe ele não seja parte do caminho pra gente sair do avesso?
Obs: O fato foi real, mas os nomes das crianças são fictícios em respeito a cada uma. Imagem meramente ilustrativa.
