Lydia: O que eu acabei de ler, você gostou?
Alice: O quê?
Lydia: Sobre o que era?
Alice: Amor. Sobre amar.
Lydia: Isso mesmo, mãe. Era sobre o amor.
As borboletas têm uma vida muito breve, cerca de um mês. Mas
a vida delas é muito feliz nesse tempo.
“Para sempre Alice” é um filme que fala de perdas. Perda de
modos, perda de objetos, perda de caminhos, perda de memória. Fala sobre
aprender a arte de perder. Afinal, quem você é quando perde até mesmo suas
lembranças? A resposta é simples e nos é dada por Alice implicitamente ao longo
dos 120 min na tela... Você continua sendo você. Pode cortar o cabelo, engordar
uns quilos, trocar o salto pelo tênis, esquecer o caminho de casa, fazer um
escândalo, rir no meio da aula, ou nem se lembrar do próprio nome. Mas você
continua sendo você.
E por mais contraditório que isso pareça, faz todo o sentido
quando a gente percebe que o que nos faz ser quem somos não são somente as
marcas corporais, estéticas, intelectuais ou as memórias que levamos. Mas
principalmente, as pessoas que estão conosco. Não foi apenas um clichê barato
quando Tom Jobim disse que é “impossível ser feliz sozinho”, era quem sabe uma
forma de alerta pra algo que nós talvez nunca enxerguemos de fato: a
independência é uma espécie de ilusão. Ninguém nasce sozinho, cresce sozinho,
alcança o sucesso sozinho. Inimaginável. Nem mesmo as nossas lembranças, nem mesmo
as nossas fotos... tudo o que somos e o que temos é parte também de outras
pessoas.
Em certo momento da
vida, seja por uma doença como a de Alice, ou pelo calejar do tempo, nós
passamos a ser mais do que nunca parte dessas outras pessoas. Parte essa que
nos vai ser lembrada quando não soubermos mais se hoje é segunda ou sábado, se
nosso aniversário é em agosto ou fevereiro, ou com qual das duas mãos
costumávamos escrever. Talvez a gente esqueça mesmo como era escrever. E vai
ser triste, dolorido, as lágrimas vão vir aos olhos e a gente já não vai mais
saber engolir em seco para prendê-las um pouco mais. A gente vai esquecer os “bons
modos” e vai falar alto em público quando algo desagradar. A gente vai esquecer
que “não se pode” fazer guerra de comida ou dançar sem música no meio da rua.
Vamos esquecer também que “não podemos” chorar descontroladamente assistindo às
mais idiotas comédias românticas. Esqueceremos que não se guarda os sapatos na
geladeira (e por que não, ué?) e que “não se deve” dizer que ama sem que seja
recíproco. Nós vamos esquecer que não devemos rir do nosso esquecimento. E
faremos coisas banais, loucas, ridículas, obscenas, contra as regras...
esquecendo de todos os “nãos” de uma vida inteira sem a liberdade de
simplesmente fazer o que se sente e ser o que se é. Nós viveremos mais como
borboletas e menos como seres humanos.
Alguns vão nos olhar torto na rua ou nas convenções, vão
dizer por aí que estamos esquisitos, que enlouquecemos, talvez. E que digam.
Nós ainda seremos nós mesmos. Porque terão pessoas que, mesmo quando
esquecermos disso e acreditarmos realmente que nos perdemos, nos lembrarão em
pequenos detalhes qual o caminho pra nos reencontrarmos.



