terça-feira, 24 de março de 2015

Butterfly – isso não é uma resenha.








Lydia: O que eu acabei de ler, você gostou?
Alice: O quê?
Lydia: Sobre o que era?
Alice: Amor. Sobre amar.
Lydia: Isso mesmo, mãe. Era sobre o amor.
 






As borboletas têm uma vida muito breve, cerca de um mês. Mas a vida delas é muito feliz nesse tempo.
“Para sempre Alice” é um filme que fala de perdas. Perda de modos, perda de objetos, perda de caminhos, perda de memória. Fala sobre aprender a arte de perder. Afinal, quem você é quando perde até mesmo suas lembranças? A resposta é simples e nos é dada por Alice implicitamente ao longo dos 120 min na tela... Você continua sendo você. Pode cortar o cabelo, engordar uns quilos, trocar o salto pelo tênis, esquecer o caminho de casa, fazer um escândalo, rir no meio da aula, ou nem se lembrar do próprio nome. Mas você continua sendo você.
E por mais contraditório que isso pareça, faz todo o sentido quando a gente percebe que o que nos faz ser quem somos não são somente as marcas corporais, estéticas, intelectuais ou as memórias que levamos. Mas principalmente, as pessoas que estão conosco. Não foi apenas um clichê barato quando Tom Jobim disse que é “impossível ser feliz sozinho”, era quem sabe uma forma de alerta pra algo que nós talvez nunca enxerguemos de fato: a independência é uma espécie de ilusão. Ninguém nasce sozinho, cresce sozinho, alcança o sucesso sozinho. Inimaginável. Nem mesmo as nossas lembranças, nem mesmo as nossas fotos... tudo o que somos e o que temos é parte também de outras pessoas.
 Em certo momento da vida, seja por uma doença como a de Alice, ou pelo calejar do tempo, nós passamos a ser mais do que nunca parte dessas outras pessoas. Parte essa que nos vai ser lembrada quando não soubermos mais se hoje é segunda ou sábado, se nosso aniversário é em agosto ou fevereiro, ou com qual das duas mãos costumávamos escrever. Talvez a gente esqueça mesmo como era escrever. E vai ser triste, dolorido, as lágrimas vão vir aos olhos e a gente já não vai mais saber engolir em seco para prendê-las um pouco mais. A gente vai esquecer os “bons modos” e vai falar alto em público quando algo desagradar. A gente vai esquecer que “não se pode” fazer guerra de comida ou dançar sem música no meio da rua. Vamos esquecer também que “não podemos” chorar descontroladamente assistindo às mais idiotas comédias românticas. Esqueceremos que não se guarda os sapatos na geladeira (e por que não, ué?) e que “não se deve” dizer que ama sem que seja recíproco. Nós vamos esquecer que não devemos rir do nosso esquecimento. E faremos coisas banais, loucas, ridículas, obscenas, contra as regras... esquecendo de todos os “nãos” de uma vida inteira sem a liberdade de simplesmente fazer o que se sente e ser o que se é. Nós viveremos mais como borboletas e menos como seres humanos.
Alguns vão nos olhar torto na rua ou nas convenções, vão dizer por aí que estamos esquisitos, que enlouquecemos, talvez. E que digam. Nós ainda seremos nós mesmos. Porque terão pessoas que, mesmo quando esquecermos disso e acreditarmos realmente que nos perdemos, nos lembrarão em pequenos detalhes qual o caminho pra nos reencontrarmos.