segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Um amor e uma dose, por favor!



Acho que eu estava no balcão saboreando minha segunda dose de whisky quando reparei neles. Era só mais uma noite de sexta que eu saía direto do trabalho pra me embreagar um pouco antes de enfrentar as maratonas do final de semana. E, sem ter muito o que fazer, acabei encontrando algo bem interessante pra me distrair. 
Eles estavam em mesas separadas. Distantes por pessoas, papos, bebidas e um corredor. Todos "bebemoravam" alguma coisa, os jovens sempre tem o que festejar. De um lado, uma mesinha rodeada de moças muito bem arrumadas e uns dois rapazes, discutindo desde a cor dos esmaltes até oportunidades de trabalho e estagio, brindavam caipirinhas e licores. De outro, um círculo mal formado de rapazes ria alto falando de jogos, mulheres e peripécias da vida, sempre intercalando com as goladas de shopp. Os dois grupos pareciam nada ter a ver, mas alguma coisa os ligava. 
Foi quando eles me chamaram atenção. Partiu dela, elegantemente acomodada no braço de uma cadeira da primeira mesa, o primeiro olhar. Instantaneamente ele, de pé na lateral da mesa de shopp, retribuiu. Até ao mais leigo observador, ficava claro que não era uma simples troca de olhares. Não era um flerte comum a uma sexta-feira em um bar badalado. Talvez nem fosse um flerte. Aqueles olhares eram uma comunicação de olhos, corpos, vozes, desejos... 
Quem nunca parou pra imaginar o que se passa na vida de pessoas desconhecidas, atire a primeira pedra. Eles se tornaram a minha diversão aquela noite. Depois do primeiro olhar, se seguiram outros. Bebiam, conversavam, riam... Mas parece que sempre terminavam no mesmo lugar: nos olhos um do outro. Às vezes os dela eram acompanhados de sorrisos ou de uma piscada. Já os dele vinham sempre com um risinho curto de canto de boca ou um beijo "enviado à distância". Era engraçado ver o modo como se entendiam sem uma palavra, cada um na sua mesa, no seu papo, e ao mesmo tempo, um no outro. 
A certa altura o flerte íntimo foi cortado por uma brincadeira da turma, que só me ajudou a confirmar o que eu já previa. Eram um casal. Bem, como eu disse anteriormente, algo ligava aquelas duas "galeras nada a ver", e naquele exato momento eu tive certeza que eram eles dois. 
A brincadeira era das antigas, mas ainda não tinha visto ser executada por casais (na verdade costuma ser motivo de brigas)... Os dois tinham 3 doses de tequila pra virar uma atrás da outra. Vence quem aguentar melhor "o tranco". 
Quando me dei conta, as duas mesas já estavam de pé bem perto de mim, pra acompanhar de camarote o que se sucederia. Os dois beberam, intercalaram caretas com gargalhadas e só tiravam os olhos um do outro pra ver se não viraram a tequila no lugar errado. 
Química. Essa foi a palavra que me veio em mente depois de tanto observar aquilo e agora é a palavra que quando ouço me remete àqueles dois. Química pura. Nunca entendi bem o que as pessoas queriam dizer ao falar que um casal "tem química", até aquela noite.
Não era só pelas trocas de olhares íntimas ou pelo modo leve como se divertiam sem precisar atestar o tempo inteiro que estavam juntos. Na verdade, eles não estavam juntos, eles eram juntos. São. Não havia alianças ou mãos dadas. Nao havia cadeiras grudadas ou cochichos no meio da roda de amigos. Havia duas rodas de amigos, com papos e bebidas diferentes. E havia eles. Com aqueles olhares que soltavam faíscas desejantes, apaixonantes, encantadoras. Eles se olhavam apaixonados e excitados. E depois das tequilas, é claro, cada mínimo toque de um no outro provocava expressões sutis que só gritavam dentro deles - "eu te quero". Vocês podem culpar os hormônios da juventude por tudo isso. Eu culpo a paixão. A cumplicidade. A leveza e amizade que eu vi no meio das faíscas entre eles. Todas essas coisas que estão tão em falta hoje em dia. Não foi preciso saber se eles estavam juntos há um mês ou há um ano. Mas foi possível ver que ali havia história e amor demais pra ser contado numa crônica de balcão de bar. 
Eles saíram antes de mim e possivelmente um pouco mais porres que eu. Decidi imaginar que iam largar os amigos no caminho e correr pra um motel pra gastar a energia e os hormônios da idade e estimulados pelas tequilas. Mas imaginei também o dia seguinte, e as semanas seguintes. As ligações antes de dormir pra falar aquelas coisas bobas e apaixonantes. As mensagens no meio dia pra lembrar que mesmo depois de tanto tempo juntos, ainda há muito tesão. As mãos dadas nos passeios despretensiosos pela praça num domingo. O sorvete que ela derrama na blusa e que, quando ele vai limpar, vira alvo de uma guerra entre cupuaçu e açaí. Imaginei também as lágrimas dela por qualquer motivo e ele delicadamente enxugando uma por uma enquanto a envolve nos braços. As risadas compartilhadas sobre os fatos da vida. Os planos feitos enquanto ela desfruta do travesseiro do braço dele. O sorriso, a respiração ofegante e o coração acelerado todas as vezes que eles pudessem ser somente um do outro, um para o outro. 
Terminei a crônica em 3 guardanapos, deixei um gole do whisky já esquecido no balcão e fui pra casa na esperança de sonhar com um amor como aquele.