E então ele me arranca uma risada gostosa, suculenta, de
tirar o fôlego. Como sempre, com alguma piada infame e sem graça alguma. Mas a
habilidade de me tirar da neblina dos pensamentos com aqueles comentários
toscos é só dele.
Eu olho em volta e caio em mim sobre o quanto aquele ser
patético me conhece, mesmo na rotina distante, ele não precisa me olhar nos
olhos pra saber quando as coisas estão bem ou não. Ele sabe, sempre sabe. Ele
entende cada pedaço torto do meu corpo e é capaz de dizer que eu to linda mesmo
com o cabelo desgrenhado, a roupa amassada e muito acima do peso. Pra ele pouco
importa se eu sigo os padrões de beleza ou da moda; eu não sou a ruiva que
deixa ele louco, não tenho a covinha pela qual ele sempre foi apaixonado, não
tenho as pernas que o fazem revirar os olhos, não sou a mais feminina e sequer
faço o tipo da mulher da vida dele. Mas aos olhos dele eu sou linda, sexy e “daria
um caldo”, tudo na brincadeira, é claro.
Além de tudo, ter o melhor conselheiro amoroso ao seu dispor
não é pra qualquer uma. Sim, eu tenho. Tenho conselhos sinceros, claros e
objetivos; apoio às burradas também e lembrança que não sou a única idiota do
universo se me apaixonar por um babaca. Tenho alguém que aguenta minhas crises,
minhas loucuras, meus momentos adolescentes e meus discursos amadurecidos sobre
a universidade e a política. “Tenho”. Que forma mais possessiva/louca/infantil
de tratar alguém. Não, ele não é um objeto. E não, não sou possessiva com ele
(não até hoje, pelo menos), mas é que repetir que eu “o tenho” é como confirmar
pra mim todos os dias a sorte que eu tive esse ano de encontrar ele.
A minha sorte se deu numa manhã das primeiras semanas de
aula. Mas é como se fosse ontem. Eu de saião, um sorriso enorme no rosto e toda
energia do mundo pra receber aquele “novato”; ele com a bermuda quadriculada de
sempre, uma timidez incomum e o ar sonolento. Sim, não vamos negar, ele reparou
nos meus peitos (foi ele quem me disse), mas isso pouco importa. Dali em diante
não era mais só eu, nem era mais só ele. Tínhamos um ao outro. Evoluímos de
áudios de 15 segundos para 5 minutos. Desabafamos, compartilhamos, choramos e
rimos muito. E em um dos dias mais importantes, ele estava lá, dizendo
novamente “você ta lindona” e “foi muito bom, eu adorei te ver e só lamento não
ter te conhecido antes”.
Lágrimas me escorrem dos olhos quando falo ou escrevo sobre
ele, mas sempre acompanhadas de sorrisos. Porque ele é bem isso: sorrisos. Sorrisos
leves, sorrisos de tardes em que o sol não é tão quente e o vento faz uma
visita gostosa. Ele é meu presente diário, minha descoberta desse ano, meu baú
de tesouros. Meu cúmplice. Meu parceiro. Meu confidente. Meu amigo. Aquele que
tem a melhor parte de mim.
