quarta-feira, 1 de junho de 2016

Com amor...

"Não, não falo de coração...
coração é piegas, careta, coração ta fora de moda [...]
Ponha num daqueles potinhos,
com água e açúcar
em que o beija-flor vem beber..." 
(Potinhos - A banda mais bonita da cidade)


Há, no mundo, muitos colecionadores. Há pessoas que colecionam palhetas, chaves, chaveiros, moedas antigas, canetas, miniaturas, souvenirs, relógios, pulseiras e até guarda-chuvas. Há quem colecione fotografias, músicas, instantes... E por que não os colecionadores de segredos? De toques, de rancores, de sabores. Há inúmeras coisas colecionáveis. E no meio do emaranhado de colecionisses, eu me enfio de cara e peito abertos. Sou colecionadora de amores. Sim, amores.
É certo que dizem por aí que só se ama uma vez na vida. Também já ouvi muitas definições pro amor verdadeiro. Ah, tagarelices. Amor é amor e pronto, não se fala mais nisso. Na verdade, falamos sim. Porque eu os coleciono. Amores de todos os tamanhos, formatos e intensidades. Amores meus e de quem passa por mim. Amores de filmes, de novelas, do teatro e das obras literárias. Amores musicais. Amores virtuais. Ora, sejamos francos, quem nunca viveu um amor que pensou ser pra vida inteira? E ele foi, na vida em que durou. Como diria Vinícius, não foi imortal, mas foi infinito.
E os amores de ônibus? Ou de esquina... aqueles em que você troca dois ou três olhares com o outro – quando não um único – e a energia é tanta que você é capaz de ter certeza que se amaram loucamente naqueles 3 minutos. Há também os amores platônicos, que vivem durante a adolescência como se infindáveis, ainda que nunca aconteçam para além da nossa mente. Os amores de uma noite, que no dia seguinte viram só mais um dígito na lista de amores de uma noite e talvez, nem se tornem memória. Os amores de infância – quando tudo é mágico e impossível e fantasioso demais – os mais doces que vivemos.
Os grandes amores. Ah, os grandes amores. Aqueles que te fazem virar o mundo de ponta cabeça porque pisar no chão já não te supre mais. São os que rendem as histórias mais longas, ainda que nem sempre tragam registros. Os risos e lágrimas mais profundos. Os que você conta aos amigos como se fosse um romance de algum autor desconhecido. São meus preferidos. Mas, impossível não mencionar os amores à primeira vista. Que me perdoem os incrédulos, até que me provem o contrário, bem... eles existem. São intensos, instantâneos, inconfundíveis. Costumam se misturar com os grandes amores, os amores de esquina e os platônicos também.
Os mais rigorosos rirão da minha cara e dirão que nada disso é amor mesmo. Dirão que não sei fazer diferença de sentimentos e talvez nem saiba o que é o amor. Bem, eu sinto. Sinto muito. Com todos os poros e partes do corpo. Sinto amor, respiro amor, transpiro amor... amo como se não houvesse amanhã. Amo por 5 segundos ou 50 anos. Amo. E coleciono o amor, porque.... o que de melhor há no mundo pra se guardar em potinhos e contar devagarinho em forma de histórias? O que de mais poético, doce, leve e lindo há pra se espalhar por aí quando se tem de sobra?
A palavrinha que, com quatro letras causa tanto estrago, pode ter ou não definição, categorias, tipos ou tamanhos. Mas é tão boa que devia ser lei. Sejamos amor, colecionadores ou não.


segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

B de Bis (2)



As primeiras gotas de mais uma chuva começam a pintar na janela do ônibus um ar de fim de tarde. De fim. No lado oposto eles conversam e riem e comem qualquer coisa pra se distrair nas últimas horas. Ela observa. Sorri internamente. Lembra dos últimos dois dias já com uma saudade gostosa.
10 pessoas numa casa e um mesmo objetivo... Luz, câmera e, principalmente, ação. "Dar vida a um ser fictício", ela ouvira uma vez sobre o papel de um ator, mas sempre se questionou sobre como dar vida a alguém se você estiver sem vida. E estar sem vida pode querer dizer muitas coisas. Mas naqueles dias nada disso precisou fazer sentido. Foi simples e, ainda que imperfeito, uma coisa fazia todos continuarem... paixão!
Entre risos, discussões, repetições, um nascimento. Vários (re)nascimentos. Ali, entre eles e a janela, a felicidade tomou conta como as gotas da chuva que estampavam a tarde. Leve. Em paz. O fim é relativo quando se vê muitos caminhos em frente. E no fim das contas, dar vida a alguém já não parecia tão difícil, pois naqueles dois dias eles deram vida a ela.
"Se sintam bem" - que isso vá pra vida.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

Dois rios inteiros


Me peguei rindo sozinha de repente quando saiste daqui. Talvez porque tenha sido tudo cômico pra gente, o que poderia – ou deveria – ser trágico. Nunca soubemos lidar direito com dramas e, quando lidamos, falhamos. Somos do riso mesmo, das piadas idiotas e das zoações sem fim. Começamos assim e assim permanecemos, amém! Enquanto o riso nos mover, não teremos cargas pra carregar e até as memórias serão como balões coloridos voando em rumo contrário ao dos ventos. Não teremos fardos, dores, traumas. Não precisamos. Somos da paz, praticantes do “deboísmo”. É certo que em algum momento nos perdemos disso, mas já reencontramos o caminho de volta a nós mesmos e, quem sabe até, um ao outro.
Somos de risos e somos diversos. Risos de deboche, de nervosismo, de alegria, de orgulho, de saudade. Rimos bobamente juntos relendo aqueles grandes momentos em pequenos pedaços de papel. Intercalamos os risos com frases e sentimentos partilhados... foram momentos felizes. Muitos momentos felizes. Momentos nossos. E sabe, nós dois sabemos o que guardamos... que nos guardamos. Sabemos que a força que a gente tem ta ali em algum lugar, só não se sabe como chegar nela. Mas sei te olhar e encontrar tudo que li naqueles papeis de novo. Sei das tuas mãos trêmulas, que continuam no mesmo ritmo e sem explicação, sei do teu desvio de olhar quando queres fugir do que eu posso ver com meus olhos nos teus, sei das tuas pequenas mentiras saturadas demais pra serem verdades, sei do teu abraço cúmplice - que agora já me é fugidio, sei da tua confusão mental e do teu problema de memória que a gente entendeu assistindo “Divertida mente”, sei da tua impaciência com a minha tagarelice, sei do hábito que tens de pensar na vida ao lavar a louça, sei do teu novo vício – antes inexistente – com o celular, sei da tua arrogância – que no fundo eu sempre vou achar que é só uma defesa pra ninguém saber da sensibilidade que só eu sei que existe em ti, sei dos nossos segredos e aventuras – que ficarão sempre só entre nós, sei dos teus medos que eu sempre precisei driblar, sei da tua preguiça e desse cansaço que agora não acaba nunca, sei da tua teimosia quando a rinite ataca e não queres fazer nada do que eu sempre digo pra melhorar, sei da tua empolgação – com os filmes, os livros, o universo nerd e tudo aquilo que amas e te faz voltar a uma energia quase infantil de tão pura, sei da tua outra empolgação... com esse universo novo que vens descobrindo e provando cada pedaço.
E sei do teu riso. Mais do que qualquer coisa sei do teu riso. Desse riso que sempre se encontra com o meu, ainda que por acaso, quando os olhares se cruzam e já não temos palavras que precisem sair. Temos risos. Um tem um pouco do riso do outro. E ainda que o tempo passe, que as coisas que sei deixem de ser como são.... ainda assim haverá o riso. Que distante pode não dizer nada, mas quando junto do meu, tem muita história pra escrever ainda.