"Não, não falo de coração...
coração é piegas, careta, coração ta fora de moda [...]
Ponha num daqueles potinhos,
com água e açúcar
em que o beija-flor vem beber..."
(Potinhos - A banda mais bonita da cidade)
Há, no mundo, muitos colecionadores. Há pessoas que
colecionam palhetas, chaves, chaveiros, moedas antigas, canetas, miniaturas,
souvenirs, relógios, pulseiras e até guarda-chuvas. Há quem colecione
fotografias, músicas, instantes... E por que não os colecionadores de segredos?
De toques, de rancores, de sabores. Há inúmeras coisas colecionáveis. E no meio
do emaranhado de colecionisses, eu me
enfio de cara e peito abertos. Sou colecionadora de amores. Sim, amores.
É certo que dizem por aí que só se ama uma vez na vida.
Também já ouvi muitas definições pro amor verdadeiro. Ah, tagarelices. Amor é
amor e pronto, não se fala mais nisso. Na verdade, falamos sim. Porque eu os
coleciono. Amores de todos os tamanhos, formatos e intensidades. Amores meus e
de quem passa por mim. Amores de filmes, de novelas, do teatro e das obras
literárias. Amores musicais. Amores virtuais. Ora, sejamos francos, quem nunca
viveu um amor que pensou ser pra vida inteira? E ele foi, na vida em que durou.
Como diria Vinícius, não foi imortal, mas foi infinito.
E os amores de ônibus? Ou de esquina... aqueles em que você
troca dois ou três olhares com o outro – quando não um único – e a energia é
tanta que você é capaz de ter certeza que se amaram loucamente naqueles 3
minutos. Há também os amores platônicos, que vivem durante a adolescência como
se infindáveis, ainda que nunca aconteçam para além da nossa mente. Os amores
de uma noite, que no dia seguinte viram só mais um dígito na lista de amores de
uma noite e talvez, nem se tornem memória. Os amores de infância – quando tudo
é mágico e impossível e fantasioso demais – os mais doces que vivemos.
Os grandes amores. Ah, os grandes amores. Aqueles que te
fazem virar o mundo de ponta cabeça porque pisar no chão já não te supre mais.
São os que rendem as histórias mais longas, ainda que nem sempre tragam
registros. Os risos e lágrimas mais profundos. Os que você conta aos amigos
como se fosse um romance de algum autor desconhecido. São meus preferidos. Mas,
impossível não mencionar os amores à primeira vista. Que me perdoem os
incrédulos, até que me provem o contrário, bem... eles existem. São intensos,
instantâneos, inconfundíveis. Costumam se misturar com os grandes amores, os
amores de esquina e os platônicos também.
Os mais rigorosos rirão da minha cara e dirão que nada disso
é amor mesmo. Dirão que não sei fazer diferença de sentimentos e talvez nem
saiba o que é o amor. Bem, eu sinto. Sinto muito. Com todos os poros e partes
do corpo. Sinto amor, respiro amor, transpiro amor... amo como se não houvesse
amanhã. Amo por 5 segundos ou 50 anos. Amo. E coleciono o amor, porque.... o
que de melhor há no mundo pra se guardar em potinhos e contar devagarinho em
forma de histórias? O que de mais poético, doce, leve e lindo há pra se
espalhar por aí quando se tem de sobra?
A palavrinha que, com quatro letras causa tanto estrago,
pode ter ou não definição, categorias, tipos ou tamanhos. Mas é tão boa que
devia ser lei. Sejamos amor, colecionadores ou não.


