quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

Dois rios inteiros


Me peguei rindo sozinha de repente quando saiste daqui. Talvez porque tenha sido tudo cômico pra gente, o que poderia – ou deveria – ser trágico. Nunca soubemos lidar direito com dramas e, quando lidamos, falhamos. Somos do riso mesmo, das piadas idiotas e das zoações sem fim. Começamos assim e assim permanecemos, amém! Enquanto o riso nos mover, não teremos cargas pra carregar e até as memórias serão como balões coloridos voando em rumo contrário ao dos ventos. Não teremos fardos, dores, traumas. Não precisamos. Somos da paz, praticantes do “deboísmo”. É certo que em algum momento nos perdemos disso, mas já reencontramos o caminho de volta a nós mesmos e, quem sabe até, um ao outro.
Somos de risos e somos diversos. Risos de deboche, de nervosismo, de alegria, de orgulho, de saudade. Rimos bobamente juntos relendo aqueles grandes momentos em pequenos pedaços de papel. Intercalamos os risos com frases e sentimentos partilhados... foram momentos felizes. Muitos momentos felizes. Momentos nossos. E sabe, nós dois sabemos o que guardamos... que nos guardamos. Sabemos que a força que a gente tem ta ali em algum lugar, só não se sabe como chegar nela. Mas sei te olhar e encontrar tudo que li naqueles papeis de novo. Sei das tuas mãos trêmulas, que continuam no mesmo ritmo e sem explicação, sei do teu desvio de olhar quando queres fugir do que eu posso ver com meus olhos nos teus, sei das tuas pequenas mentiras saturadas demais pra serem verdades, sei do teu abraço cúmplice - que agora já me é fugidio, sei da tua confusão mental e do teu problema de memória que a gente entendeu assistindo “Divertida mente”, sei da tua impaciência com a minha tagarelice, sei do hábito que tens de pensar na vida ao lavar a louça, sei do teu novo vício – antes inexistente – com o celular, sei da tua arrogância – que no fundo eu sempre vou achar que é só uma defesa pra ninguém saber da sensibilidade que só eu sei que existe em ti, sei dos nossos segredos e aventuras – que ficarão sempre só entre nós, sei dos teus medos que eu sempre precisei driblar, sei da tua preguiça e desse cansaço que agora não acaba nunca, sei da tua teimosia quando a rinite ataca e não queres fazer nada do que eu sempre digo pra melhorar, sei da tua empolgação – com os filmes, os livros, o universo nerd e tudo aquilo que amas e te faz voltar a uma energia quase infantil de tão pura, sei da tua outra empolgação... com esse universo novo que vens descobrindo e provando cada pedaço.
E sei do teu riso. Mais do que qualquer coisa sei do teu riso. Desse riso que sempre se encontra com o meu, ainda que por acaso, quando os olhares se cruzam e já não temos palavras que precisem sair. Temos risos. Um tem um pouco do riso do outro. E ainda que o tempo passe, que as coisas que sei deixem de ser como são.... ainda assim haverá o riso. Que distante pode não dizer nada, mas quando junto do meu, tem muita história pra escrever ainda.