A todos que foram, são ou serão estagiários e, futuramente, professores.
Sinto pelos que lerem esse texto e discordarem, mas eu não consigo viver em um mundo em que professores e alunos sejam "categorias" totalmente distintas. Talvez eu tenha mesmo nascido no mundo errado, ou quem sabe caído de cabeça no chão quando criança. O fato é que não me enquadro, não quero fazer parte desse sistema hierárquico [e patético] onde uns são patrões e outros são empregados.
Bem, todos sabem como funciona uma escola: um diretor, coordenadores, funcionários "faz-tudo", faxineiros, cantinas, pátios, professores e alunos. Professores, aqueles seres intocáveis que detém todo o conhecimento e tem a "missão" de transmiti-lo aos alunos; aquele que tem uma sala para tomar café e água mineral com os "colegas" de trabalho. Alunos, os que vão pra escola pra aprender tudo que a vida fora dela [supostamente] não ensina; como espaço de convivência têm os pátios e parquinhos, onde geralmente só se veem jovens e crianças na hora do recreio ou quando gazetam aula. Na perspectiva da escola: ordem e caos. Céu e inferno. Respectivamente.
Não há vítimas exatas em meio a um sistema tão duvidoso, há só uma ilusão compartilhada e vivida... todos sorriem nos corredores e saem cuspindo veneno ao virar as costas. "Não tem coisa pior que professor". "Aluno é tudo igual. Ô raça". E no meio dessa guerra fria, no susto nos deparamos com mais uma categoria: os estagiários. Aqueles que não têm uma posição certa na cadeia hierárquica escolar, porque ninguém sabe bem o que eles tão fazendo ali.
Desde maio desse ano eu sou mais uma peça dessa categoria. E quer saber? Acho o máximo. Óbvio que, como tudo na vida, tem seus dois lados, mas a vida de estagiária tem me servido pra muita coisa. Por exemplo, o estagiário pode frequentar o pátio da escola à vontade [até porque não é muito bem-vindo na sala dos professores] sem que ouça "Meu Deus, olha a tia de português ali... ta comendo o lanche da escola :O". O estagiário geralmente não sofre com a revolta dos alunos com uma aula chata; ele não precisa participar das reuniões de conselho [e nem pode], que na grande maioria não passam de reclamações e problemas "sem solução". O estagiário pode ser amigo dos alunos e passar tardes inteiras papeando com eles no pátio calorento da escola, sem que o chamem de anti ético, tarado ou enxirido. O estagiário normalmente é jovem, ou tem espírito jovial, o que faz dele uma pessoa mais agradável; ele pode usar roupas descoladas [mas sempre decentes], e não precisa aparentar estar sempre com o guarda-roupa arrumado e em dia com as tendências da moda "escolar". Pode beber água no bebedouro, comer o lanche da cantina caríssima e reclamar do preço, sofrer com o calor da escola com poucos ar condicionados... e por fim, talvez até mais importante, o estagiário ainda é aluno. Também é aluno. E ninguém melhor que um aluno pra entender outro.
Em meio a uma estrutura de céu e inferno, ser estagiário é estar no purgatório. E quem diria que estar aí seria tão interessante? Ora essa, no purgatório não existem santos e demônios. E falo isso no alto da minha ignorância. Mas o purgatório é visto como o lugar do julgamento... pra onde você vai? É meio assim que o estagiário vive. Ou você vai ser professor, ou nunca passará de um "reles" aluno. E aí que você descobre no fundo o mais legal de ser estagiário...ser julgado é o de menos quando a cada aula você aprende algo novo. Você descobre que é possível ser "aluno" dos teus alunos. Afinal, o tanto que você sabe de pretérito perfeito e orações subordinadas, teus alunos sabem sobre tecnologia, arte, cinema, jogos e livros. Sim, abram a boca os leitores espantados... eles leem. E não é pouco. E eles são tão "safos" que conseguem dividir o tempo entre todos os aplicativos do momento e os tijolões de livros e sagas que escolhem. Enquanto nós, intelectuais e professores [jamais generalizando] sequer sabemos quem é o Percy Jackson ou o quanto os Jogos são mais legais se forem Vorazes. O trocadilho foi tosco mas valeu a intenção. O que quero mesmo dizer depois dessa ladainha toda é que no mundo dos seres humanos, não existe hierarquia que torne um superior ou mais importante que outro. Quero dizer que aprender também quer dizer compartilhar, quer dizer admitir que não sabe quando alguma pergunta difícil aparecer, é assumir pra si mesmo, como diria Paulo Freire, que somos seres sempre incompletos. E o que seria do professor sem o aluno? E vice-versa?
Eu espero realmente não ter parecido ofensiva, porque não foi a intenção. Mas eu sou realista às vezes e quando tentei falar desse jeito no TCC, recebi um puxão de orelha, então o jeito é ocupar o tempo de vocês com os desabafos e reflexões de uma estagiária que se forma daqui a uns meses e infelizmente vai sair dessa categoria, mas com certeza não vai sair do purgatório. 4 ou 5 anos de curso não nos ensinam nada além de regras, conteúdos, normas... nos dão "instrumentos". Ser professor mesmo, a gente só aprende sendo.