quinta-feira, 21 de agosto de 2014

E.

Ela tem gosto de menta. Alguém pode pensar “Lá vem ela com essa mania de novo de dar gosto pras pessoas”. Lá venho mesmo. Porque pessoas, mais do que serem conhecidas, precisam ser sentidas, no olfato, na audição, no tato, na visão e por que não no paladar?
Foi difícil descobrir o gosto dela. De cara senti a textura. Camurça. Macia se souber acariciar na direção adequada. No lado oposto, irrita. Com ela é sempre meio oito ou oitenta. Ela não é de metades, de restos, de riscos. Não se atira de um precipício sem a garantia de um bom colchão pra segurá-la no final. Não dá as mãos. Prefere andar só pra tomar suas decisões. Mas no fundo não se incomoda de ser acompanhada. Eu apostei no oposto e acompanhei os passos curtos e medidos dela. Juntei meus poucos medos com suas pequenas coragens. Respirei fundo e disse pra ela confiar.

Foi quando senti o gosto de menta. Aquela refrescância, às vezes incômoda pelo ardume, que depois acostuma e passa a ser doce. Doce como bombom de café. Eu sempre termino no café. Mas ela é de menta. Pra ser degustada no amanhecer de uma ressaca moral, no anoitecer de um dia exaustivo, no entardecer calorento de Belém. Ela é de menta. Pra ser saboreada numa conversa descompromissada com gente querida, pra ser descoberta no meio de sorrisos espontâneos. Sem acompanhamentos. Somente ela. Necessariamente ela.

Sobre a minha mais querida "oposta", com sabor de menta.