Tu surgiste aos meus olhos como um cometa atravessando o céu
em uma olhadela distraída num dia comum. Te reparei quase sem perceber. Te
reparei em meio a tantas outras estrelas espalhadas no tumulto da noite. E de
reparo em reparo, eu te vi. Teu brilho, tua aura, tua respiração tranquila
ainda que em meio ao caos, tua energia, teus olhos. Aqueles dois pequenos e
precisos pontos negros no meio do teu rosto iluminado. Tudo em ti me lembra o
universo. Talvez porque pareças uma galáxia inteira presa a um corpo que não
sustenta tanta intensidade. Talvez porque pra ti o universo faça tanto sentido
quanto para os andantes comuns o dia e a noite sejam tão óbvios. Talvez porque
a primeira diversão em comum tenha sido procurar a lua no céu. Naquela noite
ela não estava lá, no lado que disseste, nem no lado que eu disse, nem por trás
da árvore, nem no caminho da minha casa. Ela estava em ti. Nos teus dois pequenos
e precisos pontos negros. E talvez por isso eu tenha te visto. E talvez o
universo tenha esperado por tudo isso e decidiu nos colocar naquela noite como
dois marionetes da vida que deviam se ver. Nos vimos.
Te reparei tantas outras vezes em tantos pequenos detalhes
que só quem também é um pouco universo poderia compreender. Fiz parte do que me
deste de ti como faço quando tomo o sagrado banho de chuva. Contigo foi sagrado
também. Foi saboroso. Degustei os segundos com os cinco sentidos aguçados;
senti as primeiras gotas de ti a respingar por perto e fui parte por parte
adentrando... primeiro a ponta dos pés e assim por diante. Em um tempo tão
relativo que nem a física quântica explicaria, eu saltitei no teu temporal. Deixei
que invadisses as minhas galáxias com tuas gotas grandes e fortes. Quando dei por
mim, já estava banhada, encharcada, um tanto curiosamente espantada e cheia de
pedaços de ti no meu universo.
Choveste em mim algumas vezes mais. E em todas elas, quando
o fim se aproximava, sentia o sabor agridoce da madrugada que se esvai e traz o
dia novo. O sabor de despedir-se da fiel companheira dos amantes, escritores e
loucos, sem saber qual deles sou. O sabor de não saber. O sabor do depois. E então
o derradeiro momento sempre se adia, porque gostas de alongar o nascer do sol,
o levantar da cama, o toque do despertador. Gostas do intervalo em que sol e
lua beijam a terra e não se decidem em quem vai e quem fica. E eu rio. Rio de
ti. Rio do teu mar de histórias fantásticas-galáticas-tuas. Mas quando, enfim,
te decides, esboço a expressão da primeira vez em que te reparei. Voltas a ser
cometa. Volto a olhar as tantas estrelas. Te vejo atravessando o céu já meio
amanhecido e só sinto os últimos toques da tua mão que não solta a minha. Nunca
deu tempo a mais, nunca foi tempo a menos. É sempre muito universal. Energético.
Lunático. Com toda poesia que há na lua. E fica sempre a sensação de desejo que
não pode ser cumprido. Fica? Só mais 5 minutinhos. Ou o tempo que teu universo
deixar.
