terça-feira, 29 de setembro de 2015

"És um senhor tão bonito..."



Já faz alguns dias desde o teu último “eu te amo”, desde o nosso abraço apertado na parada de ônibus e aquele olhar que diz muito sem nada dizer. Faz algum tempo desde que acordamos juntos e sorrimos de leve, amanhecendo um no outro, e logo depois rindo dos cabelos arrepiados mutuamente. Faz tempo que não jogamos risos no vento e curtimos o “não fazer nada” juntos. Algumas semanas passaram desde que te ouvi empolgado fazendo planos pra comprar aquele boxe da trilogia que tu amas. Faz um tempo também desde nossa última foto juntos – a favorita, diga-se de passagem – e daquele dia que eu daria tudo pra se repetir mil vezes. Contei no calendário 9 dias que comemos nossa pizza preferida e ele me contou de volta que faz 10 meses da nossa primeira conversa. Quanto tempo né? Muito, você diria. Mas não disse porque faltou tempo. Ele que é dono de tantas das nossas histórias, agora é uma das armadilhas entre nós. Mas apesar de tanto – ou pouco – tempo, certas coisas nunca mudam. Ainda chego depois de um dia de cão pensando em te ligar pra falar “aleatoriedades”. Continuo falando de ti quase que 10 vezes por dia, porque tudo que é bom me faz lembrar de ti. As pessoas ainda perguntam por que tu estás sumido e isso me faz viajar num mar de saudade pra responder. E eu ainda me derreto completamente ao ver nosso porta-retrato na mesa e me deparar com o teu sorriso... foi um tempo bom o daquelas fotos, mas agora ta “dando um tempo”. Os risos grandes por pequenas coisas vão voltar, eu sei, estão no aguardo. As tardes e noites nas cobertas, trocando felicidades, também esperam a hora certa pra reaparecer. As surpresas no meio da semana, ligações da madrugada, passeios culturais e declarações de amor sem hora pra acontecer... ta tudo guardadinho na nossa caixinha, eu te garanto. Como dizem, tudo tem seu tempo né? E agora é o teu.

Te espero, sempre. 

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Um amor e uma dose, por favor!



Acho que eu estava no balcão saboreando minha segunda dose de whisky quando reparei neles. Era só mais uma noite de sexta que eu saía direto do trabalho pra me embreagar um pouco antes de enfrentar as maratonas do final de semana. E, sem ter muito o que fazer, acabei encontrando algo bem interessante pra me distrair. 
Eles estavam em mesas separadas. Distantes por pessoas, papos, bebidas e um corredor. Todos "bebemoravam" alguma coisa, os jovens sempre tem o que festejar. De um lado, uma mesinha rodeada de moças muito bem arrumadas e uns dois rapazes, discutindo desde a cor dos esmaltes até oportunidades de trabalho e estagio, brindavam caipirinhas e licores. De outro, um círculo mal formado de rapazes ria alto falando de jogos, mulheres e peripécias da vida, sempre intercalando com as goladas de shopp. Os dois grupos pareciam nada ter a ver, mas alguma coisa os ligava. 
Foi quando eles me chamaram atenção. Partiu dela, elegantemente acomodada no braço de uma cadeira da primeira mesa, o primeiro olhar. Instantaneamente ele, de pé na lateral da mesa de shopp, retribuiu. Até ao mais leigo observador, ficava claro que não era uma simples troca de olhares. Não era um flerte comum a uma sexta-feira em um bar badalado. Talvez nem fosse um flerte. Aqueles olhares eram uma comunicação de olhos, corpos, vozes, desejos... 
Quem nunca parou pra imaginar o que se passa na vida de pessoas desconhecidas, atire a primeira pedra. Eles se tornaram a minha diversão aquela noite. Depois do primeiro olhar, se seguiram outros. Bebiam, conversavam, riam... Mas parece que sempre terminavam no mesmo lugar: nos olhos um do outro. Às vezes os dela eram acompanhados de sorrisos ou de uma piscada. Já os dele vinham sempre com um risinho curto de canto de boca ou um beijo "enviado à distância". Era engraçado ver o modo como se entendiam sem uma palavra, cada um na sua mesa, no seu papo, e ao mesmo tempo, um no outro. 
A certa altura o flerte íntimo foi cortado por uma brincadeira da turma, que só me ajudou a confirmar o que eu já previa. Eram um casal. Bem, como eu disse anteriormente, algo ligava aquelas duas "galeras nada a ver", e naquele exato momento eu tive certeza que eram eles dois. 
A brincadeira era das antigas, mas ainda não tinha visto ser executada por casais (na verdade costuma ser motivo de brigas)... Os dois tinham 3 doses de tequila pra virar uma atrás da outra. Vence quem aguentar melhor "o tranco". 
Quando me dei conta, as duas mesas já estavam de pé bem perto de mim, pra acompanhar de camarote o que se sucederia. Os dois beberam, intercalaram caretas com gargalhadas e só tiravam os olhos um do outro pra ver se não viraram a tequila no lugar errado. 
Química. Essa foi a palavra que me veio em mente depois de tanto observar aquilo e agora é a palavra que quando ouço me remete àqueles dois. Química pura. Nunca entendi bem o que as pessoas queriam dizer ao falar que um casal "tem química", até aquela noite.
Não era só pelas trocas de olhares íntimas ou pelo modo leve como se divertiam sem precisar atestar o tempo inteiro que estavam juntos. Na verdade, eles não estavam juntos, eles eram juntos. São. Não havia alianças ou mãos dadas. Nao havia cadeiras grudadas ou cochichos no meio da roda de amigos. Havia duas rodas de amigos, com papos e bebidas diferentes. E havia eles. Com aqueles olhares que soltavam faíscas desejantes, apaixonantes, encantadoras. Eles se olhavam apaixonados e excitados. E depois das tequilas, é claro, cada mínimo toque de um no outro provocava expressões sutis que só gritavam dentro deles - "eu te quero". Vocês podem culpar os hormônios da juventude por tudo isso. Eu culpo a paixão. A cumplicidade. A leveza e amizade que eu vi no meio das faíscas entre eles. Todas essas coisas que estão tão em falta hoje em dia. Não foi preciso saber se eles estavam juntos há um mês ou há um ano. Mas foi possível ver que ali havia história e amor demais pra ser contado numa crônica de balcão de bar. 
Eles saíram antes de mim e possivelmente um pouco mais porres que eu. Decidi imaginar que iam largar os amigos no caminho e correr pra um motel pra gastar a energia e os hormônios da idade e estimulados pelas tequilas. Mas imaginei também o dia seguinte, e as semanas seguintes. As ligações antes de dormir pra falar aquelas coisas bobas e apaixonantes. As mensagens no meio dia pra lembrar que mesmo depois de tanto tempo juntos, ainda há muito tesão. As mãos dadas nos passeios despretensiosos pela praça num domingo. O sorvete que ela derrama na blusa e que, quando ele vai limpar, vira alvo de uma guerra entre cupuaçu e açaí. Imaginei também as lágrimas dela por qualquer motivo e ele delicadamente enxugando uma por uma enquanto a envolve nos braços. As risadas compartilhadas sobre os fatos da vida. Os planos feitos enquanto ela desfruta do travesseiro do braço dele. O sorriso, a respiração ofegante e o coração acelerado todas as vezes que eles pudessem ser somente um do outro, um para o outro. 
Terminei a crônica em 3 guardanapos, deixei um gole do whisky já esquecido no balcão e fui pra casa na esperança de sonhar com um amor como aquele.

terça-feira, 21 de julho de 2015

Você passou...

Vai fazer 4 anos que você foi embora. Confesso que só vim me dar conta hoje desse tempo, quando me vi falando de algo que você adorava me falar. Então lembrei do seu rosto e de você por inteiro. Lembrei que passei outro dia na sua rua e que falei anteontem  com uma amiga nossa em comum. Lembrei de varios pedaços daquele "nosso" ano, como flashes de uma vida que ficou pra trás. E só me dei conta disso tudo agora...
Durante pelo menos 3 desses anos, você ainda era... Você. Com todo o porte, importância e domínio dos meus pensamentos e sentimentos. Eu ainda lembrava de tudo com uma saudade gostosa daquele que eu chamava de "meu grande amor". Ainda contava a história que eu sempre chamei de nossa como se fosse um drama romântico digno de livro. E confesso que continuava adorando ouvir as pessoas admiradas com o tamanho do meu "amor" por ti (ou da minha burrice).
Nesses quase 4 anos, eu amei, namorei, viajei, escrevi, sonhei, até me formei... E você continuava ali, no cantinho do meu peito reservado a alguém especial demais.
Mas aí surgiu alguém. E ele foi entrando devagarinho e ocupando todos os espaços, bem como todos os textos de amor clichê dizem. No meio da ocupação, lembrei de falar de você algumas vezes, ele ouviu atentamente - como ouve a tudo que eu digo - mas não quis detalhes. Na verdade, ele nunca perguntou de você, nem pediu que eu terminasse a história. Pra ele, você era só mais uma página da minha vida que passou, porque o presente... Era ele.
Aos poucos, essa despreocupação dele tomou conta de mim. Ele me ensinou a sorrir mais e lembrar menos. Me mostrou que às vezes a memória é muito útil, mas outras é um acessório desnecessário quando se caminha pra frente. E hoje, enquanto falava daquilo que me fez lembrar de você, me dei conta de quanto tempo isso não acontecia. Que o "grande amor" já não parecia tão grande. E que a última vez que nos falamos, eu sequer tive vontade de te responder as perguntas de sempre. Na verdade, lembro que senti vontade de falar do quanto eu sou feliz com ele; de como ele me faz rir; do sorriso que ele tem que me deixa boba e de como as banalidades são bem mais interessantes quando to com ele. Mas eu não ia falar disso com você, não interessava. Era só mais uma conversa corriqueira depois de meses sem contato, e você só queria mesmo saber se eu ainda estava aqui, te "amando", esperando o menino poeta. E bem, eu não estava, não estou. A minha falta de vontade na última conversa é a prova... E o que escrevo agora é uma despedida. Um alô pra você saber que agora a "sua Ismalia" não é mais sua. Criou asas como sempre quis, e voou. Ainda não chegou à lua, mas todas as vezes que ele olha pra ela sem dizer uma palavra e sorri, ela sente como se chegasse cada vez mais perto. Ismalia está no céu, menino poeta. Cumprimentando as estrelas. Descobriu que pra amar não é preciso viver um drama romântico digno de livro. Mas é preciso experimentar a felicidade aos pouquinhos, saboreando cada pequena alegria, que ele vem proporcionando a ela.

sábado, 27 de junho de 2015

Casualidade



Entramos de mãos dadas naquele que sempre foi um dos meus lugares preferidos em um shopping, a livraria. Olhei em volta, cruzei a vista com outros leitores que ali estavam como eu, sempre procurando algo que não se sabe bem o que é, aquilo que chamar atenção. Mas de repente, me deparo contigo distraído com uma HQ na mão. Encantado. Encantador. Teu perfil me parece tão familiar e distante ao mesmo tempo. Observo cada traço... os sinais espalhados pelo teu rosto, a barba por fazer, os cílios que eu daria tudo pra que fossem meus. Observo tuas mãos, macias e certas do que querem, dessa vez segurando firme não minha cintura ou meu rosto, mas aquela edição encadernada que já não lembro qual era. Teus olhos brilhavam. Ah, como é lindo o brilho dos teus olhos, ainda que de perfil. Como é lindo o traço que eles fazem quando sorriem... sim, teus olhos sorriem e dizem coisas lindas. E eu assumo meu papel de babona observando o tracejado mudar a cada expressão diferente, um entreaberto, um arregalado ou fechado por timidez.

Em seguida parece que alguém te cutucou e percebeste que eu tava em outro universo enquanto te olhava. Esperto como és, entendeste tudo. Me olhaste de volta com aquele olhar que toda mulher queria poder fotografar só pra repetir a sensação de ser única mais vezes. E um esboço de sorriso surgiu, devagar, quase que engatinhando... sentindo o gostinho de cada parte de sorrir. Eu, te olhando mais profundamente do que fixamente, saboreei cada segundo daquela hora. Teu sorriso e as covinhas mais lindas do mundo inteiro estavam ali, me lembrando do porquê tinhas te tornado mais interessante que os livros aquele dia. Me peguei sorrindo contigo, involuntariamente. E nossos sorrisos, nossas mãos e nossos lábios se encontraram. O coração ali já batia mais forte e, paradoxalmente, mais leve. Vai ver se apaixonar é isso... essa mistura louca de êxtase e paz que eu descobri enquanto te observava. Vai ver aquilo podia ser tanta coisa, ou não passar de mera casualidade. 

quarta-feira, 17 de junho de 2015

Felicidade?

Felicidade?
Disse o mais tolo: "Felicidade não existe".
O intelectual: "Não no sentido lato".
O empresário: "Desde que haja lucro".
O operário: "Sem emprego, nem pensar".
O cientista: "Ainda será descoberta".
O místico: "Está escrito nas estrelas".
O político: "Poder".
A igreja: "Sem tristeza, impossível. Amém".
O poeta riu de todos, e, por alguns minutos, foi feliz. (Fernando Anitelli)



Feliz aquele que sabe o valor de pequenas coisas. Pequenas mesmo, miúdas, banais, desimportantes. É isso: coisas desimportantes. Feliz aquele que guarda mais na memória do que no armário ou nas redes sociais. Aquele que entende o poder de alguns rápidos minutos diante dos outros tantos que formam um dia. Feliz aquele que ainda tem o brilho nos olhos e no sorriso e uma energia de dar gosto.
Felicidade é um trocinho difícil de falar né? Tem gente que acha que é passageira e outra gente que acha que é permanente. Vai saber. Pra mim, felicidade é uma coisa desimportante. Pequena, banal, quase invisível. Porque coisa importante é conta pra pagar, remédio pra tomar e trabalho pra entregar. Importantes são as notícias do jornal da noite, a crise financeira e as desigualdades. São todas as coisas que deixam a cabeça borbulhando e os músculos saltando do corpo. É o que a gente discute no jantar ou na fila do banco, são os assuntos de debates em sala de aula e de bate-boca na internet.
Felicidade, não. Como qualquer coisa desimportante, a gente nem percebe quando ela aparece. Pode durar dois segundos ou uma vida inteira; pode surpreender ou ser aguardada; às vezes tem nome e sobrenome, outras vezes não tem nem sinal de onde vem. Coisa desimportante assalta a gente das coisas importantes. Faz a gente rir sem motivo e ficar levinho, como uma folha de papel em branco pedindo pro vento escrever nela. Coisa desimportante surpreende, acende o coração e a alma pra coisa boa. As desimportâncias não tem vergonha, julgamento, preconceito ou regras. Só são desimportantes...

Mas a gente, desse mundo, só se importa mesmo com as coisas importantes. Porque elas gritam, elas acenam e chamam mais atenção que a felicidade, por exemplo. E enquanto a gente ta lá, batendo martelo sobre a importância de uma ideia, vão passando na nossa frente um tanto de coisinhas miúdas, bobas, banais, que quase não querem dizer nada. Quase. Porque as desimportâncias têm muito a dizer. A felicidade é tagarela também e fala por si só. Mas ultimamente ela fala sozinha, porque os ouvidos ficam muito ocupados com as importâncias da vida...

terça-feira, 9 de junho de 2015

Eu sou gay!

"Todos os animais são iguais, mas alguns são mais iguais que outros" (George Orwell)



Aos 12 anos, um dia acordei e, assim como escolhemos se usamos verde ou azul, escolhi ser gay. Decidi que a partir daquele dia só me apaixonaria por pessoas do mesmo sexo, porque aquilo devia ser muito lindo e divertido e com certeza me faria feliz. Então encontrei meu melhor amigo e reparei bem nele, que de repente parecia ser o cara mais interessante do mundo. Nos apaixonamos. Nos beijamos. E começamos a jornada das minhas – nossas – escolhas. Escolhi levá-lo em casa e apresentá-lo como amigo à minha família, bem, porque como eu diria “oi mãe, esse é meu namorado”?. Terminamos depois de um tempo e enquanto todos perguntavam por onde ele andava, eu dava desculpas como “viajou” ou “perdemos contato”. Tive outros namorados, é claro. E com eles vivi minha escolha mais intensamente.
Hoje minha escolha ainda repercute muito. Se ando na rua com um namorado não tocamos as mãos jamais, pra evitar a agressão em forma de olhares – assustados, risonhos ou pior... enojados – e a agressão física. E se eu apanho devo ficar calado, afinal... Quem mandou eu escolher isso? Quando vou a igreja preciso controlar o gestual e meu jeito de falar, pois para eles tenho que ser o homem da casa, da família. Quando falo de amor, devo medir as palavras, pra que não me julguem bicha ou viadinho, naquele tom irônico e intimidador. Nas rodas de amigos, se eu não comentar quão gostosas são as mulheres que passaram na rua, sou chamado de otário. E nem pensar em postar declarações públicas de amor aos meus parceiros.... onde já se viu isso?
Não existem beijos no cinema antes do filme, pra não assustar as crianças que sentam ao nosso lado. Nada de encontros românticos na praça ou jantares em restaurantes, pois corremos o risco de pedirem pra nos retirarmos. No dia a dia, na rua e no trabalho, finjo que não sou quem sou, pra que me considerem gente como eles. Ah, já ia esquecendo... também não podemos casar. Bem, juntamos as escovas de dentes e isso é o máximo que nos é de direito. Casar, não. Nem no civil, nem sob as bênçãos de Deus. Mas que pecado! Deus não nos aceita, é o que dizem as más línguas.
Somos o exemplo ruim, a má influência, aqueles que não devem se misturar. Bichos; aberrações; lixo; ratos; imundos; nojentos; pecadores.... Mártires. E se me perguntam agora por que, então, eu ESCOLHI, aos 12 anos, ser gay.... Eu vos digo: não nos avisaram que, nesse mundo, amar virou crime.

#TodaFormaDeAmorValeaPena


domingo, 24 de maio de 2015

Olha só, moreno.




“Olha só, moreno
Do cabelo enroladinho
Vê se olha com carinho
Pro nosso amor
Eu sei que é complicado
Amar tão devagarinho
Eu também tenho tanto medo...”

Eu acordo e a primeira imagem do dia é teu rosto sonolento do meu lado. Os olhinhos apertados me fitam, entreabertos, enquanto esboças um sorriso doce, leve, lindo. Retrato de uma noite que a gente não entendeu bem se foi real ou só um sonho que a gente quis tanto que realizasse. Se me pedissem pra descrever a felicidade, provavelmente eu lembraria dessa cena e meu coração ia acelerar como se eu revivesse tudo.
Te amar é essa sensação estranha e boa demais pra ser verdade. É sossego no desespero, fogo na calmaria, guarda-chuva quando a tempestade não dá trégua. Para os adeptos da teoria dos “três amores na vida”, tu serias o terceiro... aquele que a gente vai vivendo e nem sente o tempo passar – porque agora o tempo é medido pela intensidade do que se sente - , aquele te permite ser quem é e te faz ver que ainda vale a pena enfrentar o medo. E pra mim, que esperei tanto por um amor que “não fosse sério”, tu trouxeste toda graça que faltava.
Te amar é como andar nas nuvens, embora isso seja um tanto clichê e ninguém nunca tenha andado pra poder falar, de fato. E talvez seja justamente por isso que a comparação é perfeita: porque esse amor é aquele tipo que a gente nunca viveu e só imagina como seria se fosse de verdade. O meu é. Te amar é abraçar todo tempo como se não fosse largar nunca mais; é ter a melhor companhia pra assistir filmes; é passar horas contando o que houve no dia, e no dia anterior, e no anterior... e em todos os momentos que não estavas comigo; é fazer planos mirabolantes e pensar em todos os meios de realizá-los; é carinho em excesso, sem nunca enjoar. Te amar é ter uma amizade que não comporta inveja. É um segredo que a gente guarda com gostinho e só conta pra quem vai entender bem esse “não sei o quê” que a gente sente. Te amar é não se incomodar com o silêncio e nem com os barulhinhos estranhos que a gente faz sem perceber.
Esse amor não tem flores, chocolates ou jantares caros. Mas tem um gosto de novidade todo dia, de romance em cada coisa, de simplicidade. Tem mensagem surpresa na madrugada e ligação de emergência porque a saudade ta grande. Esse amor tem a gente de um jeito só nosso e que ninguém precisa entender. E tem o “eu te amo” mais sincero que eu já disse.

"Eu sei o que tempo anda difícil
E a vida tropeçando
Mas se a gente vai juntinho
Vai bem"



sábado, 16 de maio de 2015

"É você..."

Ler ao som de "É você" - Tribalistas

Talvez tenha sido naquela primeira conversa despretensiosa em que eu não te dei muita atenção. Ou talvez tenha sido no meio das conversas sobre séries e HQs. Pode ter sido também nas primeiras trocas de olhares, no primeiro toque das mãos, ainda tímidas. 
Talvez tenha sido na primeira vez no cinema, ou talvez no meio da conversa séria. Talvez tenha sido nos sorrisos, sempre soltos, entre uma piada e outra. Talvez nas implicâncias constantes. Ou só nos apelidos carinhosos. Talvez tenha sido pela tua voz sussurrada no meu ouvido, ou pela leveza do teu toque. Talvez pelo modo como seguras minha mão e mostra ao mundo que não sou mais só eu ou só você, mas nós. 
Talvez seja pelo teu modo iluminado de ver o mundo, ou quem sabe pela tua fé nas pessoas. Talvez tenha sido pelo teu jeito de me olhar falando ou fazendo qualquer coisa banal. Quem sabe seja pelas semelhanças, ou pela alegria que me provocas. Talvez tenha sido no primeiro contato dos corpos... 
Talvez tenha sido quando disseste que me ama, ainda que disfarçando e negando depois. Talvez seja pelo modo como mostras que me amas...
Talvez seja por tudo isso. Ou por nada. Seria preciso um motivo pra eu ter certeza que és tu? 
Foste tu desde o início. Era sempre tu. Somente tu. E vai continuar sendo, enquanto o amor permitir. 

sexta-feira, 17 de abril de 2015

Imprevisto

Inspirado no poema "Canção do amor imprevisto" de Mário Quintana



A gente não escolhe um poema. Ele escolhe a gente. Procuramos atentamente alguma coisa que nunca está ali. Viramos página por página em busca do poema que vamos escolher. Suspiramos cansados. Decepcionados. Às vezes paramos em um e temos certeza que é aquele, mas o resto do corpo da gente não confirma o que a mente diz. Porque o poema esperado – ou (des)esperado – é aquele que num virar apressado de páginas, ou num olhar despercebido, por algum motivo nos faz parar a procura. É o último poema, ou quem sabe o primeiro. É aquele que não te deixa mais virar a página, desviar o olhar, a atenção. O poema que te escolhe e te rouba pra ele.
Tu és pra mim como um poema. Depois de tantas procuras infindáveis e inúteis, tu me escolheste. “Com tua boca fresca de madrugada, com teu passo leve, com esses teus cabelos”. Fizeste-me parar de virar os dias, como páginas. E já não tive mais o olhar vazio, faminto. Meus olhos cruzaram os teus e souberam o que queriam. E quiseram. Querem.
Te li nas entrelinhas dos gestos, como quem tem sempre algo a descobrir. Passei os lábios na tua pele, decifrando teus versos a cada sílaba poética. Não procurei rimas ou métrica. Tua musicalidade me basta. Devorei sem que soubesses teus significados, ao olhar fixamente teus olhos distantes. Saboreei tuas expressões. Teu sono. Teu desejo. Tua alegria. Tua dor. E desabei inteira no teu sorriso. Ele me escolheu.
Mas se não tivesse escolhido, eu burlaria a regra dos poemas e te escolheria inteiro do mesmo jeito. 

terça-feira, 24 de março de 2015

Butterfly – isso não é uma resenha.








Lydia: O que eu acabei de ler, você gostou?
Alice: O quê?
Lydia: Sobre o que era?
Alice: Amor. Sobre amar.
Lydia: Isso mesmo, mãe. Era sobre o amor.
 






As borboletas têm uma vida muito breve, cerca de um mês. Mas a vida delas é muito feliz nesse tempo.
“Para sempre Alice” é um filme que fala de perdas. Perda de modos, perda de objetos, perda de caminhos, perda de memória. Fala sobre aprender a arte de perder. Afinal, quem você é quando perde até mesmo suas lembranças? A resposta é simples e nos é dada por Alice implicitamente ao longo dos 120 min na tela... Você continua sendo você. Pode cortar o cabelo, engordar uns quilos, trocar o salto pelo tênis, esquecer o caminho de casa, fazer um escândalo, rir no meio da aula, ou nem se lembrar do próprio nome. Mas você continua sendo você.
E por mais contraditório que isso pareça, faz todo o sentido quando a gente percebe que o que nos faz ser quem somos não são somente as marcas corporais, estéticas, intelectuais ou as memórias que levamos. Mas principalmente, as pessoas que estão conosco. Não foi apenas um clichê barato quando Tom Jobim disse que é “impossível ser feliz sozinho”, era quem sabe uma forma de alerta pra algo que nós talvez nunca enxerguemos de fato: a independência é uma espécie de ilusão. Ninguém nasce sozinho, cresce sozinho, alcança o sucesso sozinho. Inimaginável. Nem mesmo as nossas lembranças, nem mesmo as nossas fotos... tudo o que somos e o que temos é parte também de outras pessoas.
 Em certo momento da vida, seja por uma doença como a de Alice, ou pelo calejar do tempo, nós passamos a ser mais do que nunca parte dessas outras pessoas. Parte essa que nos vai ser lembrada quando não soubermos mais se hoje é segunda ou sábado, se nosso aniversário é em agosto ou fevereiro, ou com qual das duas mãos costumávamos escrever. Talvez a gente esqueça mesmo como era escrever. E vai ser triste, dolorido, as lágrimas vão vir aos olhos e a gente já não vai mais saber engolir em seco para prendê-las um pouco mais. A gente vai esquecer os “bons modos” e vai falar alto em público quando algo desagradar. A gente vai esquecer que “não se pode” fazer guerra de comida ou dançar sem música no meio da rua. Vamos esquecer também que “não podemos” chorar descontroladamente assistindo às mais idiotas comédias românticas. Esqueceremos que não se guarda os sapatos na geladeira (e por que não, ué?) e que “não se deve” dizer que ama sem que seja recíproco. Nós vamos esquecer que não devemos rir do nosso esquecimento. E faremos coisas banais, loucas, ridículas, obscenas, contra as regras... esquecendo de todos os “nãos” de uma vida inteira sem a liberdade de simplesmente fazer o que se sente e ser o que se é. Nós viveremos mais como borboletas e menos como seres humanos.
Alguns vão nos olhar torto na rua ou nas convenções, vão dizer por aí que estamos esquisitos, que enlouquecemos, talvez. E que digam. Nós ainda seremos nós mesmos. Porque terão pessoas que, mesmo quando esquecermos disso e acreditarmos realmente que nos perdemos, nos lembrarão em pequenos detalhes qual o caminho pra nos reencontrarmos.


segunda-feira, 16 de março de 2015

Você é a única exceção.

Ler ao som de "The only exception" - Paramore



Tu és um cara cheio de medos. É que a vida tatuou algumas dores no teu caminho e ficou difícil parar de se esconder da própria sombra né? Eu sei. E como sei, garoto.
Acontece que o destino, bem sacana, me pôs na tua vida pra sacudir teus esconderijos. 
Eu sei que não gostas de correr riscos. Não te jogas de um trapiche sem a certeza que o rio é fundo o suficiente. Não pões o pé no chão sem a certeza que é o pé direito. Não sais de casa debaixo de chuva. Tu gostas de ter certezas e de fazer mistério. E isso é lindo em ti, sabe?
Mas às vezes eu queria mesmo que tu te jogasses sem medo de nada. Queria ser o teu risco de vida (ou de morte). Queria ser a companhia que alegra as tardes tediosas. Queria ser a imagem que tem vem à mente ao ouvir legião, engenheiros, ou as trilhas dos filmes que adoras. Queria ser o motivo do sorriso e a morada do abraço. Ser o pé esquerdo. A escolha errada. O sequestro do fim da tarde. A viagem mais aguardada das férias. O encontro esperado do fim do dia. Queria ser o "mais" mesmo quando tivesses em paz. O presente com gosto de futuro. O plano, o dano. O pretexto. A desculpa esfarrapada. A amante desgarrada. Queria ser tua dúvida mais certa. A reciprocidade. A causa dos melhores dias. A saudade gostosa dos outros. Queria ser a intimidade e a confiança. 
Não faço questão do status ou dos possíveis nomes, sabe? Nem mesmo os ganhos, as alianças, os presentes, ou as mãos dadas obrigatórias (prefiro quando são por vontade própria).
Eu só queria ser a tua exceção. 

sábado, 7 de março de 2015

Eu me apaixonei pelos teus erros

Ler ao som de"3x4"- Engenheiros do Hawaí




Tu me chegaste como um presente. Desses que alguém, sem avisar, manda entregar na tua casa sem cartão ou assinatura do remetente. Vieste com todo o mistério e expectativa que um presente vem, sem falar na sensação de “o que será que tem aí?”. Tua embalagem era/é linda. Sem grandes enfeites, mas de uma beleza singular que me fez ficar vidrada e não saber como parar de olhar.
Tu tens cheiro de felicidade. Um aroma não tão doce quanto o das flores, mas tão eficiente quando o quesito é me fazer sorrir. É isso que provocas quando te aproximas... sorrisos. Involuntários. Basta olhar pro teu esboço de sorriso no canto da boca e os olhos semicerrados naturalmente, pra querer te acompanhar na alegria, no sorriso, na felicidade que tu transbordas.
Tu tens gosto de chocolate quente nas manhãs chuvosas de janeiro. Saboroso. Não tenho uma explicação plausível pra isso, mas já experimentou acordar naquele friozinho debaixo das cobertas, com a sensação de que nenhum músculo consegue funcionar? E então o chocolate quente vem e te aquece do corpo à alma, alivia o frio e te esperta pra ver que o céu nublado também é lindo. É esse sabor que tu tens.
Tu tens alma de um senhor maduro e sábio no corpo de um jovem rapaz cheio de energia (ou não tão cheio assim). És o tipo de pessoa com quem se pode discutir os problemas da humanidade, a política, o lanche da tarde, a chuva, ou qualquer banalidade da vida. Tu pensas, com corpo, alma e sentimento. E também sabes que a oração dos sábios é o silêncio – obrigada por me ensinar isso.
Mas tem coisas sobre ti que eu não queria dizer. Não contei nem pro espelho. É que tu tens mania de me olhar nos olhos e dizer coisas que me deixam meio pálida, perdida, esquecida de como faz pra falar de novo; gostas de ficar parado uns instantes só olhando pra esse rosto meio torto que eu tenho e isso me deixa sem saber o que fazer; tens a habilidade incrível de me surpreender com a leveza do teu ser; sabes exatamente como me deixar com cara de boba e adoras fazer isso; tens um jeito tão simples de ser, que é impossível não achar que tu és meio irreal; fazes tantas piadas idiotas que eu já perdi a conta; tu sabes exatamente como quebrar meus argumentos (e isso não se faz); tu me tocas de um jeito tão teu que é capaz de provocar arrepios todo tempo. Eu não contei isso a ninguém por medo que se repetisse o que se deu comigo. É que esses são teus erros, teus defeitos, as partes de ti que me fazem tentar te odiar um pouquinho a cada dia. Tentativa inútil. “Dizendo a verdade ao menos uma vez na vida... eu me apaixonei pelos teus erros”. 

quinta-feira, 5 de março de 2015

Forasteiro



Como o vento que anuncia a chuva das 2 da tarde na minha Belém; como o aroma de café quentinho embelezando o ar de manhã cedo; como o perfume que vem não sei de onde e desnorteia a gente; como o laranja de muitos tons que invade o pôr do sol – e ele gosta de pôr do sol; como a expectativa que se cria antes de ganhar um presente; como o aconchego de um abraço de urso; como o olhar observador; como o beijo que jamais se sentiu igual; como a sensação de deitar na grama e se perder contando estrelas; como o gosto pelas coisas antigas; como a leveza de ser, sem precisar ter. Como um livro, daqueles tão saborosos que você enrola dia após dia só pra não ter que terminar, pra poder degustar cada vírgula um pouco mais amanhã e depois e depois... Mas, como os livros, ele também é passageiro. Passageiro da vida. Passageiro na vida. Passa. Vem e te faz virar criminoso por querer roubar lascas do cheiro, do sorriso, do abraço, do beijo, da essência. Em seguida te segura firme e faz se comportar com um aviso: eu volto. 

sábado, 21 de fevereiro de 2015

A Foda



Ela o esperava com a porta do quarto aberta e as roupas espalhadas no chão. O lençol na cama desarrumado propositalmente, pra que parecesse casual. Não era, não para ela. A única peça que ela vestia cobria os pequenos e grandes lábios já umedecidos desde que ela desligara o telefone. Ele iria, dessa vez iria. A imaginação fértil fazia com que o corpo dela dançasse sem música e as pernas se espremessem uma na outra provocando um prazer sutil que só as mulheres entendem.
O interfone tocou. Ela pulou da cama e mandou que ele subisse. Voltou para onde estava e o esperou, de costas, para que ele não visse a boca tremendo de ansiedade. Só percebeu que ele cruzara a porta ao ouvir o riso cínico quase sussurrado, provavelmente por ter visto as roupas no chão e saber que ela o esperava “no ponto”. Não foi preciso muito pra que os corpos se juntassem. Nenhuma palavra até ali. Ele deitou o corpo sobre ela, sentindo cada músculo se moldar às curvas imperfeitas do corpo dela, levou a mão e a boca até a nuca – o ponto fraco. Ela se contorceu e ele soube que seguia o caminho certo, como sempre. Ele contornou com a ponta da língua cada traço da orelha dela, até que ela lhe virasse o rosto pedindo – muda – um beijo.
Os lábios se tocaram, famintos, com tanto desejo guardado que já não sabiam como consumir. A respiração forte dos dois vinha no ritmo dos batimentos cardíacos. Enfim, no intervalo entre um beijo e um toque, uma palavra: chupa. Obediente, ele desceu a boca sentindo os pelos da silhueta dela arrepiarem. Por cima da lingerie minúscula, ele sentiu prazer em fazer o resto do corpo dela dançar ao intercalar beijos e mordidas sobre o monte de Vênus. Delicado, mas não menos faminto, se livrou do tecido que o impedia de seguir as ordens dela. Por alguns longos minutos, brincou com a língua e os dedos de todos os jeitos naquele terreno que era só dele. Ela gemia e ele se afogava entre as pernas dela.
No auge do prazer dos dois, ela o segurou pelos cabelos até que o corpo dele cobrisse o dela e sussurrou com a voz trêmula que queria ser dele. Ela já era. Desde o primeiro beijo, trocado em uma volta de ônibus; desde o primeiro telefonema que durara mais que o necessário para um relacionamento “sem compromisso”. Ele a queria. Como um leão deseja agarrar sua presa. Era carne, corpo. Mas era mais que isso também, ele só ainda não sabia.
Ao se livrar da roupa que ainda cobria o símbolo da masculinidade, não foi preciso mais nada, ele já sabia o caminho. Penetrou aqueles lábios com o pênis e sentiu o corpo dela estremecer. Dali em diante, o ar faltava, e o desejo aumentava. Sexo. Dois corpos satisfazendo os desejos um do outro. As mãos estavam dadas, como outrora, embora não mais trocando carícias, mas o toque firme de quem quer compartilhar cada sensação de prazer mútuo. Gemidos. O gozo. O segundo que vale por todo o resto, em que corpo e mente perdem o controle.
E então, depois de alguns segundos de descanso, ela se encontrava sobre seu travesseiro favorito – o colo dele. Sentia as pontas dos dedos que há pouco a fizeram delirar percorrer o braço no sentido de ida e volta. De quando em vez trocavam um meio-abraço mais apertado, um olhar carinhoso e um leve toque dos lábios.  Numa das trocas de olhares, ela achou que era hora. Olhou firme naqueles pequenos olhos que a miravam com ternura e disse, sem pensar, as três palavras temidas: eu te amo.
Em seguida o que se viu pareceu ser um sorriso de canto de boca, um rosto avermelhado, e o resto de um dia arruinado. O quarto, ainda cheirando a sexo, despedia-se daquele que não sabia o que dizer. Ele se foi. 

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

O mundo de "Sophia"



Ela tem olhos amendoados como os meus e um sorriso que remete a uma alegria doce e infantil. Ela tem energias boas. Muito boas. Tem um andar leve e um ar atencioso como nunca vi. E ela sabe ouvir, aliás, diria que é a melhor ouvidora do mundo (sim, porque em se tratando dela nada tem escala menor que o mundo, o universo e tudo mais). Digo isso porque mais do que ouvir, ela é capaz de escutar: com ouvidos atentos, olhos semicerrados, boca fechada e postura preparada. Ela te escuta com todos os membros pra saber exatamente o que dizer depois. E sempre sabe o que dizer. 
Ela tem o nome que um dia quero dar a uma filha, embora para mim ela seja meio mãe. No grego, o nome quer dizer "sabedoria" - algo que ela tem de sobra, mesmo com alguns anos a menos de vida que eu. Mas afinal, o que são alguns anos de vida para alguém que essencialmente vive? É provável que você não entenda o que quero dizer com isso, seriam precisos alguns meses de convivência diária com o sorriso e os conselhos dela. Mas, a verdade é que... essa moça, sabe lá de onde veio, traz esperança à vida, porque de algum jeito que não tem receita ou fórmula pronta, ela vive... absorve a vida, ela sabe que cada gota de chuva transmite uma sensação diferente e cada rajada de vento é capaz de mover uma folha do lugar. Ela sabe que os raios do sol não queimam se você souber dividir bem o espaço com eles. Sabe que uma vírgula é capaz de transformar todo o sentido de uma declaração. Sabe que banhos de chuva fazem bem pra saúde se você se secar direitinho depois. E sabe que o amor vale a pena, mesmo se for preciso enfrentar alguns percalços pra que ele dê certo. 
Essa moça, que sabe tanto das coisas e faz tão bem por onde passa, bem que podia fazer morada por aqui, bem pertinho. Mas passarinho precisa voar, descobrir, cantar em outras freguesias de vez em quando. E sendo assim, quisera eu que todos pudessem ouvir o canto de Sofia.  

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Eu acredito em contos de fadas



Eu sou de uma geração em que garotas entre 12 e 15 anos sonhavam em encontrar o príncipe encantado. Não, não to falando do cara loiro, alto, dos olhos azuis, estilo ator americano. É o príncipe mesmo, fino, rico e educado, montado no cavalo branco que vem pra mudar completamente a sua vida e viverem felizes para sempERROR.
De todos os clichês baratos, esse é o pior e mais claro: príncipes não existem. Enxuguem suas lágrimas e enxerguemos a realidade. Mas, para boas sonhadoras como nós (e aqui me incluo completamente nesse bolo), não é porque não nascemos Cinderela que não temos direito ao sapatinho de cristal, certo? Certíssimo.
Por termos certeza disso, passamos a vida procurando em todos os personagens de contos de fadas aquele que trará o sapatinho que vai encaixar perfeitamente em nossos pés, mas acabamos muitas vezes com os pés descalços cheios de calo no final das festas. Tudo gira em torno de uma premissa muito proferida pelas solteiras bem resolvidas: enquanto não encontro o homem certo vou me divertindo com os errados. Mas afinal, se não existem príncipes, quem são esses homens certos e errados? Boa pergunta, não dá pra saber.
Você só sabe que o seu vizinho tem um jeito lindo de dizer “Boa tarde”, que o colega da fila do lado na escola tem o olhar 43 mais sexy do mundo e que o seu melhor amigo é o tipo de cara com quem você se casaria – porque era o único que ia aguentar todas as tuas loucuras. Bem, caindo um pouco mais na realidade, posso dizer que há quase 3 meses estou vivendo um conto de fadas, às avessas, óbvio. Encontrei via cantadas clichês e desinteressadas aquele que de príncipe não tem nada, mas é capaz de acabar com minha armadura ao sorrir pra mim. Ele não chegou no cavalo branco, não me deu beijo de cinema, sequer me olhava com cara de encantado. Ele só é um cafajeste menos cafajeste que muitos outros. Ah, e tem o sorriso mais lindo que eu já vi.
Não preciso dizer que não faltaram pessoas dizendo “sai dessa, ele não presta”, ou “amiga ele só quer te usar”, talvez eu só quisesse ser usada também ou talvez quisesse descobrir se realmente a impressão das pessoas era certa ou errada. Até agora todos erraram. Ele não tentou me levar pra cama na primeira semana nem saiu por aí falando o quanto eu sou boa ou ruim. E aí que mora o encanto dessa história (boba) toda: fui eu que cheguei nele, eu que construí o cenário e encaixei o sorriso na minha rotina (eu já falei sobre o sorriso dele?). E tudo se tornou tão leve, tão fácil, tão simples. Pela primeira vez eu só senti a emoção e o encanto do baile, e não o sofrimento da gata borralheira.

Aí os medrosos vão continuar dizendo “querida ele não é príncipe encantado”, “acorda, essa capa de bom moço vai cair”, “procura algum que te mereça”. E eu, me equilibrando nos sapatinhos de cristal e no vestido mais lindo, pergunto de volta: quem disse que eu quero um príncipe encantado (já que eu sei que nem existe)? Quem falou que ele precisa de elegância, dinheiro ou qualquer coisa pra ser simples e sincero? E, bem, eu não sei se ele me merece, quem pode julgar isso? Mas eu sei que eu mereço as tardes mais alegres que ele me proporciona, o carinho intenso e sem “intenções”, as conversas sobre a infância e a sensação de que voltei aos 15 anos e to vivendo uma linda aventura, que há de ter um fim, mas nem por isso vai deixar de ser feliz para sempre. 

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Paralelismo











“São duas almas bem gêmeas
Riem no mesmo riso
Choram nos mesmos ais
São vozes de dois amantes
Duas liras semelhantes
Ou dois poemas iguais” 
(Casimiro de Abreu)










Eles se cruzaram aos tropeços na mesma calçada de tijolos irregulares. Caíram juntos e com a mesma força se reergueram. Não é comum que dois daqueles tão iguais se cruzem por aí, mas naquele caso era possível. Eram as mesmas rimas, as mesmas folhas rabiscadas e as mesmas marcas do tempo no canto da folha. Versos que se diferenciavam por uma escrita mais singela e outra um pouco mais rude, como se um fora escrito alguns anos antes do outro. Será que fora o vento que os levou ao mesmo lugar naquele dia? Vai saber. Os dois poemas perambulavam meio tontos depois de mais uns traumas de viagem, esperavam para serem recolhidos por bons leitores, que lhes tirassem o fôlego ao decifrar cada palavra dos versos amorosos. Porque o que dá vida aos poemas é isso, sabe? Os leitores. Poemas são feitos para serem lidos, para deliciarem a boca, a mente e o coração de bons devoradores de palavras. Poemas são feitos para alegrar, acalmar, acalentar corações desassossegados. E aqueles dois, especialmente, foram feitos pro amor, pra leitores de corações acelerados e almas esperançosas, para aqueles que se permitem cair na arriscada jornada das aventuras amorosas. Dois poemas. Muitas rimas. Uma espera eterna naquele quarteirão. Naquelas linhas, muitas histórias, algumas lágrimas, um universo de sentimentos compartilhados. Dizem que poemas falam muito sobre seus poetas. No caso daqueles dois, eram duas poetisas, que escreviam diariamente como podiam suas histórias na vida, com versos tortos e às vezes sem rima, com palavras simples e pensamentos grandes demais para o pedaço de papel. Eram duas almas bem gêmeas. Que riam no mesmo riso e choravam nos mesmos ais. Eram vozes de duas amantes. Duas liras semelhantes. Ou dois poemas iguais. 

sábado, 3 de janeiro de 2015

O final dos finais felizes.




- Tchau
- Tchau. Até qualquer dia.
- É, quem sabe.

E assim, numa conversa corriqueira, na espera do metrô, numa fila de banco, na ligação da manhã... o amor acaba. A experiência me permite contradizer os poetas que dizem que o amor é para sempre. Ele até pode ser para sempre. Até o para sempre acabar. Cruel ou não, todas as coisas, das mais lindas às mais desagradáveis, têm prazo de validade. Pode ser amanhã ou depois, ou no Natal, ou quem sabe daqui a 20 anos. Mas quando chega a hora, não tem “chove não molha”. Apenas acontece. Você dá a última olhada para trás e vê que acabou. Dali a uma semana, ou mês, sabe lá, aquela cena vai se repetir em forma de lembrança. E quando isso acontecer talvez você chore, talvez você ria, depende do seu modo de lidar com despedidas. Mas, acredite, uma hora ou outra você aprende a lidar. E você aprende também que não é porque acabou que não foi feliz, que não valeu a pena. Parafraseando Vinícius, toda chama se apaga, mas enquanto acesa, é infinita.
Amor acaba, sim. Quando menos se espera ou apenas quando é preciso. Acaba e te deixa meio pateta por um tempo, pensando onde foi parar tudo aquilo que há pouco estava ali. Deixa as pernas bambas e a cabeça confusa, porque amor também acostuma. Como fazer com todas as tardes embaladas em carinhos e promessas? E o vazio do telefone que não toca antes de dormir para desejar boa noite? Onde foram parar os risos, as brincadeiras, o “perfeitos um para o outro”? Acabou. Sim, acabou. The end. Abre uma caixinha e coloca tudo dentro, das fotos às lembranças, dos presentes aos sentimentos. Deixa lá, quietinho, enquanto o coração ficar remexendo o passado e tentando se virar, trôpego, pelo presente.

Depois de um tempo, dias ou meses, a gente recupera a caixinha do fundo do baú, abre a tampa só um pouquinho e tira um punhado das coisas boas que ficaram ali. Como a caixa de Pandora, não deixa escapar a esperança, porque quando abrir a caixa um novo amor está por vir.