Disse o mais tolo: "Felicidade não existe".
O intelectual: "Não no sentido lato".
O empresário: "Desde que haja lucro".
O operário: "Sem emprego, nem pensar".
O cientista: "Ainda será descoberta".
O místico: "Está escrito nas estrelas".
O político: "Poder".
A igreja: "Sem tristeza, impossível. Amém".
O poeta riu de todos, e, por alguns minutos, foi feliz. (Fernando Anitelli)
Feliz aquele que sabe o valor de pequenas coisas. Pequenas
mesmo, miúdas, banais, desimportantes. É isso: coisas desimportantes. Feliz
aquele que guarda mais na memória do que no armário ou nas redes sociais.
Aquele que entende o poder de alguns rápidos minutos diante dos outros tantos
que formam um dia. Feliz aquele que ainda tem o brilho nos olhos e no sorriso e
uma energia de dar gosto.
Felicidade é um trocinho difícil de falar né? Tem gente que
acha que é passageira e outra gente que acha que é permanente. Vai saber. Pra
mim, felicidade é uma coisa desimportante. Pequena, banal, quase invisível.
Porque coisa importante é conta pra pagar, remédio pra tomar e trabalho pra
entregar. Importantes são as notícias do jornal da noite, a crise financeira e
as desigualdades. São todas as coisas que deixam a cabeça borbulhando e os
músculos saltando do corpo. É o que a gente discute no jantar ou na fila do
banco, são os assuntos de debates em sala de aula e de bate-boca na internet.
Felicidade, não. Como qualquer coisa desimportante, a gente
nem percebe quando ela aparece. Pode durar dois segundos ou uma vida inteira;
pode surpreender ou ser aguardada; às vezes tem nome e sobrenome, outras vezes
não tem nem sinal de onde vem. Coisa desimportante assalta a gente das coisas
importantes. Faz a gente rir sem motivo e ficar levinho, como uma folha de
papel em branco pedindo pro vento escrever nela. Coisa desimportante
surpreende, acende o coração e a alma pra coisa boa. As desimportâncias não tem
vergonha, julgamento, preconceito ou regras. Só são desimportantes...
Mas a gente, desse mundo, só se importa mesmo com as coisas
importantes. Porque elas gritam, elas acenam e chamam mais atenção que a
felicidade, por exemplo. E enquanto a gente ta lá, batendo martelo sobre a
importância de uma ideia, vão passando na nossa frente um tanto de coisinhas
miúdas, bobas, banais, que quase não querem dizer nada. Quase. Porque as
desimportâncias têm muito a dizer. A felicidade é tagarela também e fala por si
só. Mas ultimamente ela fala sozinha, porque os ouvidos ficam muito ocupados
com as importâncias da vida...