"Todos os animais são iguais, mas alguns são mais iguais que outros" (George Orwell)
Aos 12 anos, um dia acordei e, assim como escolhemos se
usamos verde ou azul, escolhi ser gay. Decidi que a partir daquele dia só me
apaixonaria por pessoas do mesmo sexo, porque aquilo devia ser muito lindo e
divertido e com certeza me faria feliz. Então encontrei meu melhor amigo e
reparei bem nele, que de repente parecia ser o cara mais interessante do mundo.
Nos apaixonamos. Nos beijamos. E começamos a jornada das minhas – nossas –
escolhas. Escolhi levá-lo em casa e apresentá-lo como amigo à minha família,
bem, porque como eu diria “oi mãe, esse é meu namorado”?. Terminamos depois de
um tempo e enquanto todos perguntavam por onde ele andava, eu dava desculpas
como “viajou” ou “perdemos contato”. Tive outros namorados, é claro. E com eles
vivi minha escolha mais intensamente.
Hoje minha escolha ainda repercute muito. Se ando na rua com
um namorado não tocamos as mãos jamais, pra evitar a agressão em forma de
olhares – assustados, risonhos ou pior... enojados – e a agressão física. E se eu
apanho devo ficar calado, afinal... Quem mandou eu escolher isso? Quando vou a
igreja preciso controlar o gestual e meu jeito de falar, pois para eles tenho
que ser o homem da casa, da família. Quando falo de amor, devo medir as
palavras, pra que não me julguem bicha ou viadinho, naquele tom irônico e
intimidador. Nas rodas de amigos, se eu não comentar quão gostosas são as
mulheres que passaram na rua, sou chamado de otário. E nem pensar em postar
declarações públicas de amor aos meus parceiros.... onde já se viu isso?
Não existem beijos no cinema antes do filme, pra não
assustar as crianças que sentam ao nosso lado. Nada de encontros românticos na
praça ou jantares em restaurantes, pois corremos o risco de pedirem pra nos
retirarmos. No dia a dia, na rua e no trabalho, finjo que não sou quem sou, pra
que me considerem gente como eles. Ah, já ia esquecendo... também não podemos
casar. Bem, juntamos as escovas de dentes e isso é o máximo que nos é de
direito. Casar, não. Nem no civil, nem sob as bênçãos de Deus. Mas que pecado!
Deus não nos aceita, é o que dizem as más línguas.
Somos o exemplo ruim, a má influência, aqueles que não devem
se misturar. Bichos; aberrações; lixo; ratos; imundos; nojentos; pecadores.... Mártires.
E se me perguntam agora por que, então, eu ESCOLHI, aos 12 anos, ser gay.... Eu
vos digo: não nos avisaram que, nesse mundo, amar virou crime.
#TodaFormaDeAmorValeaPena
