sábado, 21 de fevereiro de 2015

A Foda



Ela o esperava com a porta do quarto aberta e as roupas espalhadas no chão. O lençol na cama desarrumado propositalmente, pra que parecesse casual. Não era, não para ela. A única peça que ela vestia cobria os pequenos e grandes lábios já umedecidos desde que ela desligara o telefone. Ele iria, dessa vez iria. A imaginação fértil fazia com que o corpo dela dançasse sem música e as pernas se espremessem uma na outra provocando um prazer sutil que só as mulheres entendem.
O interfone tocou. Ela pulou da cama e mandou que ele subisse. Voltou para onde estava e o esperou, de costas, para que ele não visse a boca tremendo de ansiedade. Só percebeu que ele cruzara a porta ao ouvir o riso cínico quase sussurrado, provavelmente por ter visto as roupas no chão e saber que ela o esperava “no ponto”. Não foi preciso muito pra que os corpos se juntassem. Nenhuma palavra até ali. Ele deitou o corpo sobre ela, sentindo cada músculo se moldar às curvas imperfeitas do corpo dela, levou a mão e a boca até a nuca – o ponto fraco. Ela se contorceu e ele soube que seguia o caminho certo, como sempre. Ele contornou com a ponta da língua cada traço da orelha dela, até que ela lhe virasse o rosto pedindo – muda – um beijo.
Os lábios se tocaram, famintos, com tanto desejo guardado que já não sabiam como consumir. A respiração forte dos dois vinha no ritmo dos batimentos cardíacos. Enfim, no intervalo entre um beijo e um toque, uma palavra: chupa. Obediente, ele desceu a boca sentindo os pelos da silhueta dela arrepiarem. Por cima da lingerie minúscula, ele sentiu prazer em fazer o resto do corpo dela dançar ao intercalar beijos e mordidas sobre o monte de Vênus. Delicado, mas não menos faminto, se livrou do tecido que o impedia de seguir as ordens dela. Por alguns longos minutos, brincou com a língua e os dedos de todos os jeitos naquele terreno que era só dele. Ela gemia e ele se afogava entre as pernas dela.
No auge do prazer dos dois, ela o segurou pelos cabelos até que o corpo dele cobrisse o dela e sussurrou com a voz trêmula que queria ser dele. Ela já era. Desde o primeiro beijo, trocado em uma volta de ônibus; desde o primeiro telefonema que durara mais que o necessário para um relacionamento “sem compromisso”. Ele a queria. Como um leão deseja agarrar sua presa. Era carne, corpo. Mas era mais que isso também, ele só ainda não sabia.
Ao se livrar da roupa que ainda cobria o símbolo da masculinidade, não foi preciso mais nada, ele já sabia o caminho. Penetrou aqueles lábios com o pênis e sentiu o corpo dela estremecer. Dali em diante, o ar faltava, e o desejo aumentava. Sexo. Dois corpos satisfazendo os desejos um do outro. As mãos estavam dadas, como outrora, embora não mais trocando carícias, mas o toque firme de quem quer compartilhar cada sensação de prazer mútuo. Gemidos. O gozo. O segundo que vale por todo o resto, em que corpo e mente perdem o controle.
E então, depois de alguns segundos de descanso, ela se encontrava sobre seu travesseiro favorito – o colo dele. Sentia as pontas dos dedos que há pouco a fizeram delirar percorrer o braço no sentido de ida e volta. De quando em vez trocavam um meio-abraço mais apertado, um olhar carinhoso e um leve toque dos lábios.  Numa das trocas de olhares, ela achou que era hora. Olhou firme naqueles pequenos olhos que a miravam com ternura e disse, sem pensar, as três palavras temidas: eu te amo.
Em seguida o que se viu pareceu ser um sorriso de canto de boca, um rosto avermelhado, e o resto de um dia arruinado. O quarto, ainda cheirando a sexo, despedia-se daquele que não sabia o que dizer. Ele se foi.