domingo, 16 de fevereiro de 2014

A rainha e o plebeu

Ele escrevia contos de fada sobre ela. Fazia dos cachos castanhos o travesseiro de suas palavras. De lá, elas brotavam sorrateiras para cada parte do violoncelo que, para ele, o corpo dela representava. Nas sobrancelhas levemente arqueadas, as palavras faziam-na pôr-do-sol, início e fim ao mesmo tempo, abrindo espaço para o eclipse que aconteceria mais adiante. 
Nas pupilas dilatadas, ela era o dragão fêmea que inescrupuloso cuspia fogo e fumaça no quarto vazio de tudo que não fosse os dois. Os lábios cobertos do mesmo vermelho da noite anterior eram, na fantasia das palavras dele, a perdição de um reino distante com guerreiros barrando a livre entrada para a língua doce daquela mulher.
Pouco a pouco, como um rio, as palavras desaguavam pela pele morena de sol, até chegarem ás cascatas formadas por seus seios descobertos. Ali ela seria fada, sem varinha, com condão natural surgindo cifrado pelo violoncelo. Quando enfim o umbigo. Redemoinho. A armadilha de uma bruxa para fazê-lo perder-se no caminho. Embriagava-o de todos os doces perfumes dantes derramados ali. Até que, tonto, ele alcance rastejante o Monte de Vênus. O lendário. O fruto de outro conto, onde a fantasia ultrapassa o limite entre bruxas e fadas, onde ela é rainha e ele plebeu- destinado a escalar cuidadosamente o monte a mando de sua ama. 
Daquele ponto em diante o rio perde seu rumo, o conto de fadas torna-se labirinto estendido pelas longas e grossas pernas da musa daquela história. E o poeta então acorda, com mais um texto incompleto, na mesma posição em que começara a ladainha. Sentado na sacada a admirar sua princesa que dormia a sono leve em seu castelo, do outro lado do reino, do outro lado da rua.