quarta-feira, 12 de março de 2014

Vício



"Se tu me cativas, nós teremos necessidade um do outro"


- Vem cá, me dá um abraço?
Foi só o que ela disse logo que ele chegou na sala. Ela não precisava de nenhuma resposta feita de palavras ali. Ambos sabiam que só era preciso um abraço. Um daqueles.
Ele olhou em volta, procurando não achar indícios de um impedimento determinado. Se aproximou de manso, ela sorriu daquele jeito tosco de quem pensa "como ele faz isso?" e esperou. Ali, nos muitos centímetros que separavam os dois corpos, havia mais coisa do que se pode pensar. Uma raposa e um príncipe. O principal: haviam cheiros. Dois aromas únicos e intensamente perceptíveis para os dois.

Ela amava o cheiro dele. A mistura doce, aparentemente inocente, anunciava um toque especial de pimenta, de cheiro de homem feito, cheiro de segredo - algo que ela jamais iria contar.
Ele amava o cheiro dela. Um aroma que por si só anunciava a força da mulher sem defesas, cheiro de mato, de fantasias, cheiro de gente estranha que chega pra ficar.

Chegando mais perto já dava pra ver ela inclinando a cabeça na posição certa que encaixaria na longa curva entre o pescoço e o ombro dele. O melhor lugar pra sentir o vício do aroma. Ele não se preocupava tanto, só sentia. Mulheres, como sempre, detalhistas demais.
Então ele chegou e ela se afundou naquela sensação única de abandonar o mundo inteiro por um abraço. Ele riu de leve e abafado com a boca encostada na nuca dela. Todas as forças estavam nos braços. Os olhos fechados, os corações conversando sobre qualquer coisa que não fizesse sentido. Ninguém precisa fazer sentido dentro de um abraço.
Os aromas se misturaram e ela não se incomodava com excessos. Queria mais, sempre que pudesse.
Se largaram como se os braços ainda puxassem um ao outro pra continuarem escondidos ali. Era bom. Era leve e simples. Os olhos dela diziam "obrigado" e os dele sequer precisavam retribuir, pois o sorriso bobo de sempre já o fizera.

4 segundos. Um abraço. Um mundo que desapareceu. Um esconderijo. Dois aromas. Um carinho. Sempre poucas palavras. Não há o que dizer quando se demonstra sentimento em atitude.
Na despedida, pouco tempo depois, um lamento mental: "quando vai ter outro de novo?". Assim que der, veio a resposta.

Enquanto isso, abstinência.