quinta-feira, 6 de março de 2014

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Ele tem os olhos de ressaca. Olhos de criança que acabou de acordar e ainda não sentiu cheiro de café. Ele é meio criança também, no jeito e na voz. No toque é um homem com sede de conquista; nas palavras é um velho e apaixonado escritor que as domina como se fossem amigos há muito tempo, trocam figurinhas e afinidades e juntos constroem obras primas, que a gente convencionou chamar de textos.

Ela não saberia explicar, mesmo que alguém pedisse. Foi rápido e sequer fazia algum sentido. Quando ele apareceu, ela ainda não estava pronta; ele veio com lápis e papel na mão e com o olhar mais seguro de quem sabe o que faz. De fato ele sabia. No primeiro toque ela se deixou guiar, mas apenas observou de longe o que aquele garoto magro fazia de tão interessante pra que ela não conseguisse desgrudar o olhar. Poucas palavras, uma distância mínima capaz de transmitir o calor um do outro.

Dali em diante só foi preciso um pouco de coca e um chocolate, detalhes pra outro conto qualquer. As madrugadas já não eram tão frias, solitárias ou assustadoras. Eles estavam sempre acolhidos pelo intermédio entre lua e sol e recheavam esse espaço em branco com conversas sobre o nada, risadas e algumas prosas poéticas. Ela vinha com o café e ele completava com o leite.

Afinidade é um negócio estranho de descrever em palavras. Talvez baste dizer que eles riam o mesmo riso e choravam as mesmas lágrimas, pois eram crianças no tempo errado. Em pouco tempo, ela se encantara com o jeito único que ele tinha de sorrir com os olhos e com aquela mania chata de ficar repetindo a mesma coisa milhões de vezes só pra encher o saco... “egua não, mano... não mano, egua. Égua não, mano”. Ela já sabia que ele não podia comer doce e amava empadão e pão de queijo. Ah, sem esquecer a coca zero. Nossa, ele era doido por essa maldita coca zero. Ela também se encantava todo dia com a risada meio forçada dele ao telefone, e com o talento pra ser garoto propaganda da tekpix. Ela gostava de como ele a fazia rir e do quanto ela se sentia leve falando com ele. Ele era o “meu bem”.

Ele, ao mesmo tempo, deve saber que ela é uma idiota na maioria das vezes, por não ter coragem de dizer o quanto ele é importante e quão admirável ela o considera. Ele também deve desconfiar de todas as vezes que ela morre de ciúmes porque ele deu mais atenção a alguém do que a ela, e provavelmente sabe da vontade inesgotável que ela tem de se esconder no abraço dele quando se encontram. E ele sabe, com certeza, o quanto ela o acha um dos caras mais incríveis que ela já conheceu, embora panaca quase sempre.
No fundo, ele sabe com todo o coração, que ela o ama. Mas não pode dizer isso, pois ela jamais admitiria. Nem mesmo após passar a madrugada tentando escrever as melhores palavras e perdendo-as por todo canto do quarto... nem assim ela admitiria.

Pra ela, aqueles olhos de ressaca que riem sozinhos, aquelas mãos de um homem descobridor e aquele jeito de criança levada só fazem sentido se forem mistério. Segredo de dedinho, ninguém pode saber. De manhã, todos os dias, só na mistura do café com leite, algum mistério é revelado. Por hoje, isso basta.

Texto dedicado ao meu bem, pela comemoração de mais uma década de santiaguisses.