Talvez sejam precisos alguns anos pra que eu entenda o que de tão raro e profundo existe no teu olhar. O que me prendeu naquela tarde e me desconcentrou do mundo. O que, afinal de contas, me fez dar a volta e mudar de rumo, caminhar sem destino na beira da tua estrada. Por alguns minutos, senti que eu era a única coisa interessante pra ti em meio aquele turbilhão de informações e pessoas... senti que teus olhos contornavam os meus e invadiam minha mente, que descobrias meus medos e minhas dúvidas. Senti que éramos só nós, embora fosse um pouco cedo pra nos tornarmos primeira pessoa do plural.
Naquele dia eu não precisei fazer sentido, não exigi explicações, eu só estava ali e encontrei teu olhar estacionado na minha bolha de incertezas. Os teus olhos de citrino, de âmbar, de tantos futuros guardados. Quem ler isso pode perguntar "mas desde quando olhos guardam futuros?" e eu direi que os teus, sim, como os de ninguém, guardam um emaranhado de futuros que só eu descobri, quando pulei o muro do teu universo particular e passei a caminhar, me equilibrando pé a pé, nas beiradas da tua estrada.
Me perdoa por te contar, mas apesar de até aqui eu só falar sobre os teus olhos, sobre o que todas falam, foi o teu sorriso que me fez escrever sobre ti. O teu sorriso me fez passar madrugadas em claro esperando um sinal do celular como resposta. O teu sorriso que motivou tantos papos sem assunto, tantos assuntos sem papo. O teu sorriso te tornou tão essencial. Pois eu acho que ninguém vê, assim como os teus futuros, que escondes do lado esquerdo do rosto, um sinal de mistério, de quem aprontou sem ninguém saber... uma covinha. É certo que ela não aparece sempre, nem pra qualquer pessoa. Mas eu vi, quando te pedi a primeira vez pra ver de perto o âmbar dos teus olhos, uma covinha nascendo junto com um meio sorriso, um esboço tosco de quem quer rir mas não pode.
É desse sorriso, acompanhado da covinha do lado esquerdo do rosto, que eu preciso pra esboçar o meu sorriso de criança que ta conhecendo o mundo agora. Eu preciso do teu encanto. E se você deixar, te ensino a sorrir desse jeito todos os dias ou um pouco mais. Assim quem sabe eu não precise me preocupar com a profundidade dos teus olhos cor de mel escuro.
