É meio óbvio dizer que nós vivemos um constante “vir a ser”,
mas às vezes- quase sempre- é necessário lembrar de coisas óbvias. Mesmo que eu
não quisesse, minha mente atribulada faz questão de puxar a orelha dos meus
pensamentos fúteis diariamente pra lembrar que tenho um problema maior, ou
muitos problemas maiores. Eu preciso ser algo, eu preciso ser alguém. Quando eu
era pequena, perguntava pra minha mãe por que eu tinha que estudar, ela
respondia com o discurso que todo pai sabe de cor: “pra você ser alguém na vida”.
Mas, surpreendentemente ou não, eu não fingi que tinha entendido muito bem a
resposta e, como boa filha de psicóloga, re-respondi questionando: “mas eu já
não sou alguém?”. Esse episódio é lembrado pela minha mãe toda vez que faço
algo “memorável” relacionado a estudos (tipo passar no vestibular, etc.). É, eu
já era alguém e continuei sendo. Fui alguém quando subi nos palcos pela
primeira vez, e também na última. Fui alguém quando, aos 6 anos e numa escola
estranha de SP, fui oradora da turma. Fui alguém quando levei ovadas por meu
nome ter saído na rádio. E agora... bem, eu devo ser alguém, ainda. A questão
não é bem ser ou não ser (como diria Shakespeare), mas sim “quem ser”?
Toda essa baboseira dita até agora não quer dizer nada além
dos conflitos que me povoam desde sempre. E eu sei que povoam vocês também.
Porque de certa forma a vida não faz sentido sem essa necessidade eterna de
algo, essa falta de um “não sei o quê”, sem desejos incessantes, sem sonhos
imensuráveis. Talvez eu ande lendo muito de psicanálise, mas... o que seria da
vida se a gente não sonhasse? E aí vem o X da questão toda: a gente vive num
mundo em que sonhar é tão importante quanto ir ao cinema- diverte, mas não dá
dinheiro (a não ser pros donos do cinema). Você cresce ouvindo os “nãos” dos
seus pais e depois tem que enfrentar os nãos da vida, da realidade... você
sonha em se formar e fazer algo lindo pelo qual você seja extremamente
apaixonado, então você encontra o seu grande amor em uma viagem a passeio, tem
dois filhos, mora numa casa estilo novela das 8, tem o emprego perfeito, se
aposenta, constrói laços inseparáveis, viaja o mundo e morre em paz. Ok, agora é
a hora que você acorda e lembra que é brasileiro e já desistiu há muito desse
tipo de sonho.
Sonhar ainda não é proibido, mas ta quase lá. Miguel de
Unamuno disse um dia que “o homem vive de razão e sobrevive de sonhos”, e
provavelmente ele estava sonhando ao lançar essa ideia. No fim das contas, a
gente vive de razão e sobrevive dela mesma, porque o que somos nós hoje sem um
diploma, um carro e uma casa própria? Cada dia é preciso mais. Já não basta uma
graduação, tem que ter a pós; não serve ter dinheiro, tem que ser rico; não
basta estar com alguém, tem que tirar uma foto... etc etc etc. E os sonhos?
Andam ficando debaixo do travesseiro. A gente deixa pra pensar neles só quando
a situação ta crítica, quando as dúvidas voltam a sobrevoar a nossa mente,
quando a razão já não parece o suficiente pra nos deixar felizes. É isso aí, a
gente esqueceu que felicidade não combina com o “quero mais”, mas sim com “sou
mais”.
Não tem uma solução certa pra tudo isso que eu to falando, é
mais um desabafo porque eu acordei e lembrei que ainda to atrasando uns sonhos
que tenho há tanto tempo. Atrasei meus sonhos porque queria “ser alguém”. Veja
só eu, que patética... Onde foi parar a garotinha que sem os anos de estudo já
sabia que era alguém?
“Pr’onde foi a
coragem do meu coração?”, Fernando Anitelli perguntou e eu respondo: foi ali
ser feliz, e só volta depois que o sonho sair do travesseiro e se tornar maior
que a razão.
