domingo, 20 de julho de 2014

"Sobre o medo de sonhar" ou "A crônica do medo"



É meio óbvio dizer que nós vivemos um constante “vir a ser”, mas às vezes- quase sempre- é necessário lembrar de coisas óbvias. Mesmo que eu não quisesse, minha mente atribulada faz questão de puxar a orelha dos meus pensamentos fúteis diariamente pra lembrar que tenho um problema maior, ou muitos problemas maiores. Eu preciso ser algo, eu preciso ser alguém. Quando eu era pequena, perguntava pra minha mãe por que eu tinha que estudar, ela respondia com o discurso que todo pai sabe de cor: “pra você ser alguém na vida”. Mas, surpreendentemente ou não, eu não fingi que tinha entendido muito bem a resposta e, como boa filha de psicóloga, re-respondi questionando: “mas eu já não sou alguém?”. Esse episódio é lembrado pela minha mãe toda vez que faço algo “memorável” relacionado a estudos (tipo passar no vestibular, etc.). É, eu já era alguém e continuei sendo. Fui alguém quando subi nos palcos pela primeira vez, e também na última. Fui alguém quando, aos 6 anos e numa escola estranha de SP, fui oradora da turma. Fui alguém quando levei ovadas por meu nome ter saído na rádio. E agora... bem, eu devo ser alguém, ainda. A questão não é bem ser ou não ser (como diria Shakespeare), mas sim “quem ser”?
Toda essa baboseira dita até agora não quer dizer nada além dos conflitos que me povoam desde sempre. E eu sei que povoam vocês também. Porque de certa forma a vida não faz sentido sem essa necessidade eterna de algo, essa falta de um “não sei o quê”, sem desejos incessantes, sem sonhos imensuráveis. Talvez eu ande lendo muito de psicanálise, mas... o que seria da vida se a gente não sonhasse? E aí vem o X da questão toda: a gente vive num mundo em que sonhar é tão importante quanto ir ao cinema- diverte, mas não dá dinheiro (a não ser pros donos do cinema). Você cresce ouvindo os “nãos” dos seus pais e depois tem que enfrentar os nãos da vida, da realidade... você sonha em se formar e fazer algo lindo pelo qual você seja extremamente apaixonado, então você encontra o seu grande amor em uma viagem a passeio, tem dois filhos, mora numa casa estilo novela das 8, tem o emprego perfeito, se aposenta, constrói laços inseparáveis, viaja o mundo e morre em paz. Ok, agora é a hora que você acorda e lembra que é brasileiro e já desistiu há muito desse tipo de sonho.
Sonhar ainda não é proibido, mas ta quase lá. Miguel de Unamuno disse um dia que “o homem vive de razão e sobrevive de sonhos”, e provavelmente ele estava sonhando ao lançar essa ideia. No fim das contas, a gente vive de razão e sobrevive dela mesma, porque o que somos nós hoje sem um diploma, um carro e uma casa própria? Cada dia é preciso mais. Já não basta uma graduação, tem que ter a pós; não serve ter dinheiro, tem que ser rico; não basta estar com alguém, tem que tirar uma foto... etc etc etc. E os sonhos? Andam ficando debaixo do travesseiro. A gente deixa pra pensar neles só quando a situação ta crítica, quando as dúvidas voltam a sobrevoar a nossa mente, quando a razão já não parece o suficiente pra nos deixar felizes. É isso aí, a gente esqueceu que felicidade não combina com o “quero mais”, mas sim com “sou mais”.
Não tem uma solução certa pra tudo isso que eu to falando, é mais um desabafo porque eu acordei e lembrei que ainda to atrasando uns sonhos que tenho há tanto tempo. Atrasei meus sonhos porque queria “ser alguém”. Veja só eu, que patética... Onde foi parar a garotinha que sem os anos de estudo já sabia que era alguém?
“Pr’onde foi a coragem do meu coração?”, Fernando Anitelli perguntou e eu respondo: foi ali ser feliz, e só volta depois que o sonho sair do travesseiro e se tornar maior que a razão.