"Você foi tão cedo
A vida é um mistério, ela não diz por que
Mas tua semente hoje está presente
Vai florescer"
(Catedral)
Frágil. Talvez não seja a palavra certa mas é a que melhor se encaixou agora. Não há um dia sequer na vida em que não estejamos frágeis. Corremos no dia a dia pra conquistar coisas que queremos ou que nos fizeram querer... pra que? Se é tudo tão frágil. Se por um beijo, uma rajada de vento ou um tropeção na calçada tudo vira poeira e não sobra ninguém pra contar história?
Eu devia ter 10 anos e uns trocados quando nos apresentaram. Foi preciso virar a cabeça alguns graus atrás pra olhar aquele homem esguio, moreno cor de jambo. Mas apesar da altura espantosa e do perfume indiscutivelmente sedutor, foi o sorriso que prendeu meus olhos naquele rapaz. Ele me abraçou daquele jeito que são os abraços de quem acaba de se conhecer, meio incertos, meio caídos. E então segurou nas minhas mãos e após aprender o meu nome pela boca da minha mãe, ele disse com aquela voz doce que nada combinava com o porte - Alana é um nome bonito, né xará?
É. Na hora eu era bobinha demais pra entender a piada. Óbvio que meu nome era lindo porque parecia o dele.
Ele era um cara legal. Não, eu to mentindo. Me desculpem, é a situação que me deixou assim. Ele era fantástico. Tinha o sorriso mais sincero e uma alegria de dar gosto. Sonhos. Muitos sonhos. E determinação para realizá-los. Ele era o tipo de pessoa que inspira a gente. E hoje eu me arrependo infinitamente por nunca ter dito isso a ele.
Sabe, a sensação é péssima e eu não desejo pra ninguém. Ar-re-pen-di-men-to. Não há lágrimas que paguem uma palavra não dita, um olhar não trocado, um sentimento que não foi exposto. No fundo acho que ele sabia o quanto eu gostava dele, acho que ele notava como eu gostava de encontrar com ele nas casualidades da vida, acho que ele sentia o quanto tínhamos de parecido- além do nome. Os abraços evoluíram pra apertos grandes de quem fica muito feliz de se ver, as piadas mudaram para perguntas rotineiras... "Como ta na escola? Ai, arrasou. E os gatinhos?". E o carinho cresceu, e como.
Hoje ele se despediu do mundo, mas não conseguiu me dar um "tchau, Alana. Até qualquer dia". Tudo bem, eu entendo, acontece. E aí eu fiquei frágil. Todos ficaram. A fragilidade tomou conta de todas as pessoas que ganhavam força ao ver o sorriso dele. E no íntimo de cada um, todos se perguntam "pra que então tudo isso? Pra terminar assim?". Não há uma resposta certa pra isso, não há um caminho a se seguir... mas ele, como boa inspiração de vida pra todos, sabia muito bem o pra que das coisas. E hoje, infelizmente só hoje, eu garanto a vocês que, se eu puder ver outros sorrisos como o dele no meu caminho, valerá a pena a fragilidade do final.
Vai com Deus. Até logo. Foi bom te conhecer.
Ah, já ia esquecendo... Teu nome é bonito, Allan.
